Tudo começou uma noite, em Taizé, depois do jantar. Um irmão chama-me e sento-me ao seu lado: «Pierre, temos uma viagem em vista. Poderias ir a Portugal?»
Cinco dias mais tarde, eis-me no avião!
Dez dias em Portugal... de norte a sul, de este a oeste. Dez dias magníficos para a travessar o país, para impregnar-me de paisagens fascinantes do campo, da beira mar, do esplêndido património, do mistério das cidades lusitanas. Dez dias a visitar igrejas, paróquias, grupos de oração, escuteiros, amigos da comunidade, escolas. Dez dias para encontrar um povo, a sua história, o seu presente, as suas dificuldades, os desafios da vida cristã no coração do mundo. A minha missão? Ir ter com eles, simplesmente. Estar presente. Estar lá como um apoio, um sinal de comunhão, uma pequena luz de esperança.
Eis alguns extractos do meu diário de viagem.
Primeiras impressões
«Aterragem no Porto. Sol, chuva, sol. Olá Douro! Rio milenar. Dilúvio de cores, pobreza, autenticidade, vinho, barcas velhas, relevos, tectos, campanários, muralhas, escadas, pontes, pequenas capelas... Não consigo abraçar tudo, há tanto!»
Desafios actuais
«O Pedro gostaria de ir de viagem, viver uma experiência mais longa em Taizé, mas as responsabilidades que carrega nos ombros impedem-no: trabalha para sustentar os seus pais, cuja empresa faliu devido à crise económica que tem fortes consequências em Portugal. Os salários caíram em média mais de 10%! Período difícil... Para onde se vira hoje? A agonia está bem presente. Muitos jovens portugueses deixam o país para encontrar trabalho fora.»
A alma da cidade
«Lisboa, fora do tempo. Nobreza e mistério. Terraço sobre o desconhecido. Uma cidade oceânica! O espírito, como o vento do largo e da descoberta, sopra. Sensação de abertura, de luz, de liberdade. Perco-me nestas ruelas tão típicas onde formigam prédios velhos, odores de outrora, casas de fado, roupa à janela, calçadas, azulejos pintados nos muros. Cativo e deixo-me encontrar pela alma da cidade. Saudade, Arte, Amor, Vida.»
Viagem ao coração de Portugal
«No cume de Coimbra reina a universidade, uma das mais antigas de Europa, centro de reflexão, berço de revoltas. Atmosfera autêntica de vida de estudante.»
Escuta e Testemunho
«Para cada encontro o discurso é diferente. Tenho de formar corpo com a minha audiência. Desta vez, um dilúvio de perguntas, de sorrisos, de agitações, de vida, de caras luminosas, de olhos brilhantes. A alegria no coração, aí encontro a minha energia. Lembrar-me-ei durante muito tempo deste momento em que me ajoelho no corredor, rodeado de pequenas crianças de 6 anos, perguntando a cada um o seu nome, rindo juntos, cativando-se. E eles, a sua excitação ao ver-me ali, esta divertida e simples alegria de estar juntos. Eles repetindo o meu nome. Momentos mágicos de partilha, de jogo, de despreocupação...
No mesmo dia, estudantes interpelam-me: “Quem é Deus para ti?”. Outros mais velhos perguntam-me: “Porque é que os ateus vão a Taizé? Será que conseguem mudar de vida interior durante uma semana na colina? E a diferença entre religiões? Toda a gente pode entrar na igreja?”. Para os escuteiros, evoco o meu caminho de Santiago, experiência itinerante de confiança e abandono à providência. Os adultos perguntam-me sobre a oração, a dimensão da vida monástica, a vida depois da morte do irmão Roger.
Em alguns lugares, sinto que a minha presença faz mais sentido que nunca. Como para esta classe de adolescentes em grandes dificuldades, de um bairro muito pobre de Lisboa, perto de um antigo bairro de lata. Que dizer? Como captar a sua atenção? Falo dos dons em cada um deles. Do Mistério. Da universalidade e do que vivemos em Taizé. Do acolhimento. As suas perguntas: “Não seria mais feliz em fazer outra coisa? Quanto dinheiro ganha? Quantas vezes por dia rezam? Quanto tempo levou para acreditar em Deus?”
Para além de todas as palavras, para muitos a simples presença de um voluntário à escuta é já um grande presente. O dom de uma visita partilhada.»
Presenças
«Em Fátima: acendo uma vela pelas pessoas que amo. Fico muito tempo em frente à chama, ardendo no meio de todas as chamas... Um sopro atravessa o edifício. Sopro de luz e de fé.»
Oração
«Entre muitas orações, há a oração, tão esperada, na Igreja de São Nicolau. Aqui, depois do encontro europeu de Lisboa em 2004, cada sexta-feira à noite, há sempre alguém presente que vigia. Esta noite, numerosas pessoas vieram. Profundeza de oração e de silêncio. Beleza e plenitude do canto. Estes cantos de Taizé fantasticamente transcritos para português que se revela ainda e sempre mais belo. Pedem-me de falar no final da oração. Palavras simples então. Não quero dizer muito. Prefiro olhá-los. Eles são belos, ardentes, atentos, cheios de juventude, os seus olhos brilham, os seus olhares parecem absorvidos. Um face a face magnífico, cheio de esperança, de simplicidade e de alegria no coração desta bela igreja iluminada à luz da vela.»
Encontro inesperado?
No final de uma subida de duas horas a pé até ao cume da selvagem serra de Sintra (600m de altitude), aos pés da cruz que domina a paisagem, eis que vem ao meu encontro uma jovem sul-coreana com quem me meto a falar muito naturalmente... de Taizé.
Ao perguntar-me sobre a duração da minha viagem, espanta-se:
«Só dez dias?»
-Sim, dez dias! E no entanto parecem uma eternidade.
Dois jovens voluntários visitaram Portugal em Janeiro de 2012
Dois jovens voluntários em Taizé, o Francesco (italiano) e o Manuel (alemão), estiveram em Portugal em Janeiro de 2012 para encontrar jovens, fazer um intercâmbio de experiências e participar em orações comunitárias. Nesta viagem a Portugal, visitaram escolas e paróquias do Porto, Viseu, Torres Novas, Coimbra, Santarém, Aveiro, Gondomar, Braga e Guimarães.

«O que fazer da minha vida? Será o que Evangelho me pode ajudar a ser um cidadão empenhado na construção de uma sociedade mais justa e fraterna?»: estas são interrogações com que muitos jovens se deparam que foram abordadas nalguns dos encontros. Os voluntários de Taizé falaram também sobre as suas próprias vivências: «Porquê dar tanto tempo a uma experiência de voluntariado? De que forma podem o serviço aos outros, a oração e a vida comunitária ajudar um jovem a decidir o rumo a dar à sua vida?»
Depois da passagem dos dois voluntários em Viseu, a Lúcia (uma jovem desta cidade) escreveu:
Nos últimos anos tenho tido a possibilidade de ir a Taizé, bem como aos encontros europeus organizados pela comunidade, e cada ano que passa sinto com mais afinco que a comunidade sai de dentro para fora e não o inverso. Seria bem mais cómodo estar na pequena aldeia e esperar que as pessoas a procurassem, mas não, a comunidade de Taizé vai ao encontro, põe-se a caminho naquilo que chama a «Peregrinação de Confiança».No dia 12 e 13 de Janeiro, a diocese de Viseu recebeu a visita de 2 jovens voluntários que estão em Taizé desde meados de 2011. Francesco e Manuel, de Itália e Alemanha, respectivamente, vieram a Portugal para dar o seu testemunho e partilhar a sua entrega e alegria com todos os que tiveram a possibilidade de estar com eles, bem como perceber as preocupações dos nossos jovens e da Igreja da nossa Diocese.Estes 2 jovens participaram em várias aulas da Escola Secundária de Viriato e Colégio da Imaculada Conceição; puderam visitar alguns lugares de culto da cidade e tiveram disponíveis para uma tertúlia no CCVJ, departamento da juventude, vocações e ensino superior, onde deixaram uma mensagem de confiança, mostrando total disponibilidade de Taizé em continuar a colaborar com os jovens da diocese de Viseu, bem como da sua Igreja.O bispo da diocese, D. Ilídio Leandro, não quis deixar de estar presente através de uma mensagem de gratidão aos voluntários, que representavam a comunidade de Taizé, agradecendo a forma como os jovens da diocese que visitam a aldeia são acolhidos e percebem Deus nas suas vidas, evidenciando o forte contributo num caminho de perseverança de todos os que experimentam a vida de Taizé, nem que seja durante uma semana.Permanece a alegria de acolher estes 2 voluntários como uma mais valia para esta diocese que continua num caminho sinodal de descoberta e crescimento.