No Sudão do Sul: Outubro de 2011

«Somos uma nação na infância, existimos há apenas três meses e três dias. Mas, hoje, somos cidadãos de primeira classe. Qual é o nosso papel na construção de um novo Sudão? Pode o amor ter lugar na política e no desenvolvimento?» disse o Bispo Santo, Bispo Auxiliar de Juba, apresentando à partida todos os objectivos no simpósio «Uma igreja de cada tribo, língua e povo», que teve lugar na capital do Sudão do Sul entre 13 e 16 do último mês de Outubro. Um irmão de Taizé que vive em Nairobi participou neste encontro.
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Um grupo de jovens em Rumbec

Foi a primeira vez desde 1984 que a Igreja Católica se reuniu e lançou um convite além dos seus limites: representantes de outras igrejas, membros do parlamento e representantes governamentais. A atmosfera estava ainda marcada pela proclamação da independência a 9 de Julho de 2011: gratidão e seriedade perante o futuro desconhecido.

Desde a primeira expedição dos exploradores ocidentais e o princípio da colonização em cerca de 1820, o destino dos sudaneses do sul foi um caminho de sofrimento e humilhação, com o domínio turco, a revolta mahdista e a soberania anglo-egípcia, seguidos por uma rápida descolonização que beneficiou apenas o Norte, que impôs o seu jugo e desejo de adoptar uma cultura árabe e islâmica. Tal provocou resistência no Sul: motins, movimentos de guerrilhas, exílio. O preço foi elevado em vidas humanas e no atraso no desenvolvimento, mas este caminho difícil e complicado foi também de entrada no mundo. «Hic sunt leonês» (Aqui estão leões) – até ao século XVIII, era esta a única indicação nos mapas. Durante os conflitos, negociações, remissões e recaídas na violência, frequentes vagas de refugiados; passo a passo deu-se um despertar para o mundo exterior, um alargar de contactos. O ano de 2011, com o referendo sobre a independência e a proclamação da independência seis meses depois, coroou este reconhecimento internacional. «Somos o 193º país das Nações Unidas e o mais pobre do planeta…»: palavras que falam de orgulho no caminho percorrido e na imensidão da tarefa que se encontra pela frente.

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A preparar uma oração

Peter Tiberius reformou-se do ensino público, portanto é duplamente um «ancião» cujas palavras e testemunho são respeitados. «Da escravatura à independência de hoje, foi a fé que nos libertou! Foi a fé que abriu os nossos olhos e é por isso que, chegados à independência, queremos agradecer aos nossos antecessores e as pessoas que os trouxeram até nós. Os nossos povos foram marcados pela escravatura. Duvidavam que tivéssemos almas. Os missionários chegaram com outra perspectiva: aprenderam as línguas locais, foram a funerais, participaram nos eventos oficiais. Acreditavam na evangelização de africanos livres. Fizeram tudo o que podiam para erradicar a escravatura. África não é uma terra amaldiçoada, os seus habitantes não nasceram para ser escravos. São seres humanos dignos de serem salvos, libertos, evangelizados e desenvolvidos. Nós não existíamos: eles colocaram-nos no mapa deste mundo, tornando-nos parte da Igreja universal. Esta era a convicção de Daniel Comboni, que tinha uma dupla paixão: pelo Evangelho e por África. Trouxe uma abordagem renovada à missão: a cooperação de todos, o estabelecimento de uma igreja africana autónoma, a importância das mulheres. Em termos práticos, os missionários introduziram a agricultura, as primeiras máquinas, livros; mas, também, a procura da paz, reconciliação, perdão e acolhimento dos outros entre as tribos que lutavam entre si. Durante os anos do conflito, e apesar da expulsão dos missionários, a Igreja foi a única instituição que permaneceu no local. O governo traiu-nos, as Nações Unidas retiraram-se, os sistemas tradicionais foram destruídos. Os catequistas continuaram a liderar as comunidades locais que, por vezes, tiveram que se mudar em procura de refúgio. A Igreja forneceu alimentação de emergência, cuidados de saúde, educação, segurança, e, igualmente, mediação nas negociações de paz. A Igreja foi a única voz a defender os direitos humanos.»

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Liceu Loretto em Rumbec

As histórias seguem-se umas às outras, repletas de dignidade, modéstia, de contenção sobre o sofrimento passado. Os avisos dos organizadores e as questões do público revelam de igual modo a vertigem experienciada perante esta nova liberdade.

No final do serviço de domingo na catedral, o Presidente Salva Kiir, um paroquiano regular quando se encontra na capital, é convidado a falar. Especialista em educação, explica a acção do Governo nos últimos meses e encoraja cada pessoa a fazer a sua parte no esforço que será necessário: «Independência é liberdade, é responsabilidade. Vamos ter que desenvolver um radar para discernir o que bom do que não é.»

«Juba não é o Sudão do Sul!», recordavam-me todos os que encontrava, «tem que ir às províncias». E foi assim que, após um voo de 45 minutos num avião do Programa Alimentar Mundial, fui imerso durante uma semana no centro do país, na região de Rumbek, capital do Estado dos Lagos.

A duas horas e meia a nordeste de Rumbek, do outro lado da planície arborizada e dos pântanos, a paróquia de Tonj é gerida por uma equipa de salesianos. James vem da Índia, Pedro é espanhol, Henry é coreano… Apresentou aos jovens os cânticos de Taizé, que descobriu enquanto treinava em Brooklyn. Esta noite é o terceiro convite para uma noite de oração meditativa. Às 16.30, juntamo-nos aos jovens que ensaiam os seus cânticos na guitarra, conduzidos por um voluntário eslovaco. Um irmão vietnamita organiza a decoração do pequeno pódio no meio do jardim da escola primária.

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Uma igreja em Rumbec

Prosseguimos, improvisando cuidadosamente dois dias de retiro com os estudantes da Escola do Loreto. Há um encontro debaixo de uma árvore às 16.30 para reflectir sobre a fonte da confiança e o chamamento de Cristo. Depois, uma novidade: meia hora de reflexão pessoal em silêncio antes de acolher o que cada pessoa deseja partilhar. «Não falam em pequenos grupos de partilha, mas, se os convidarem a expressarem-se perante todos e os escutares, eles participarão», explicou a irmã Ann.

Todas as noites, na sala do Sexto Ano transformada em espaço de oração, toda a escola se reúne para uma oração comunitária; com oração à volta da Cruz à sexta-feira e Noite de Luzes no sábado. No domingo, uma delegação de pupilos junta-se aos jovens da paróquia. Após o serviço, oitenta jovens de toda a cidade reuniram-se. Juntos, assistimos a um filme sobre o encontro em Kigali, que está a ser preparado para Novembro de 2012.

No Sudão do Sul, a Igreja está ainda muito perto das suas origens. Como em outros locais e outros momentos, Cristo comunica através do testemunho de comunidades que celebram um Deus que está presente no sofrimento humano, que deu a Sua vida e abriu um caminho de vida através de grande sofrimento e humilhação. Permite às pessoas que procurem e encontrem um sentido para a sua vida mesmo nas circunstâncias mais dramáticas. Os primeiros missionários, os primeiros padres africanos que consumiram a sua vida no fogo do Evangelho, fundamentaram a sua mensagem de paz e perdão. Hoje, os que consagram a Ele as suas vidas e servem os seus anfitriões africanos garantem que a transmissão continue.

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Celebração em Rumbec

Última actualização: 23 de Novembro de 2011