Nova aurora... novos desafios

Um irmão em Timor

Timor Leste proclamou a sua independência no dia 20 de Maio de 2002, depois de um longo período de sofrimentos que assistiu a algumas das piores atrocidades dos tempos modernos. Um irmão reflecte sobre a situação do país, na sequência da sua vista – a quarta – três meses depois da independência.

Estas palavras são o título de um capítulo de uma brochura escrita na altura da independência de Timor Leste. As duas línguas faladas em Timor Loro Sae, o português e o tetun, utilizam a palavra «novo»: «Nasaun Foun» (nova nação), «Dame foun» (nova paz), e utilizam também imagens como a da aurora, «como um sol nascente». «Timor sem temor» significa «Timor sem medo». Isto foi talvez o que mais me marcou durante os primeiros dias que aqui passei. As faces, os olhares mudaram. Já não vemos aquela tristeza indizível e aquele medo no fundo do olhar, que me marcaram aquando das visitas de 1991 e mais ainda em 1992, depois do massacre de Santa Cruz. Falei com a pessoa que me acolheu sobre a minha última visita em Julho de 2001. Estava-se no começo da campanha eleitoral. Tinha havido uma grande jornada de «paz, tolerância e democracia», na qual eu tinha participado no meio de uma grande multidão. O seu objectivo era levar todos os partidos a comprometerem-se a viver toda a campanha num espírito de respeito mútuo. Era um grande desafio para todos, mas o compromisso foi respeitado: a campanha eleitoral, as eleições e a preparação da independência foram vividas em paz. «É extraordinário constatar que, depois de vinte e oito anos de violência e de medo, o povo timorense demonstrou, apesar de tudo, a sua vontade de viver unido.» O meu anfitrião respondeu-me: «Sim, é verdade. Esta passagem pacífica para a independência é um sinal de esperança; contudo é só um sinal. É preciso esperar. Há muitas feridas por sarar. Os acontecimentos de 1999 deram lugar a toda a espécie de ajustes de contas.»

Durante a visita, houve encontros em muitos lugares, a maior parte deles durante duas ou três horas. Cada encontro dava oportunidades para falar daquilo que se vive em Taizé: por exemplo, neste Verão, jovens timorenses que estudam em Portugal vieram participar nos encontros internacionais. Saber isto foi muito importante para os jovens deste novo país.

No início dos encontros explicava o sentido da visita; ou melhor, o sentido das visitas que muitos irmãos fazem através do mundo: exprimir a nossa vocação para a comunhão. Aqui, em Timor, esta vocação é confirmada no momento em que o Presidente, os bispos e todos os que têm responsabilidades convidam o povo timorense a viver na unidade.

É talvez impressionante ouvir as reacções dos jovens à leitura da Carta de 2002 do irmão Roger, «Ama e di-lo com a tua vida» : «Nem as desgraças nem a injustiça da pobreza vêm de Deus: Deus só pode dar o seu amor.»

«Muitas vezes os nossos pais dizem-nos que é preciso aceitar a realidade, os acontecimentos, porque foi isso que Deus preparou para nós. Isso pode tornar-nos passivos ou agressivos. Mas se soubermos e acreditarmos que Deus não quer o sofrimento, nós podemos dizer para nós próprios: "levanta-te! faz um esforço, faz com que esse sofrimento seja, senão suprimido, pelo menos aliviado; faz todo o possível para que a injustiça que te revolta não exista mais."»

A passagem da Carta sobre o jovem africano que perdeu o pai é também muito significativo, porque muitos aqui estão também na mesma situação. «Sabem que a vossa tradutora desta manhã é irmã do Padre Hilário, um jovem sacerdote de Suai, morto em 1999?»

A questão de fundo é a do perdão e da reconciliação. Kofi Annan, no seu discurso no dia da independência, tinha dito: «Os timorense demonstraram uma imensa capacidade para perdoarem e para aceitarem entre si o regresso dos que cometeram crimes.» Isso é certamente verdade, mas a realidade é infinitamente mais complexa. Os vinte e cinco anos de ocupação e de opressão deixaram traços profundos. Será preciso alguns anos para que se dê a cura.

A revista «Églises d’Asie» de 1 de Junho de 2002 publicou uma entrevista com o bispo de Baucau. Perguntaram a D. Basílio do Nascimento: «As violências de Setembro de 1999 permanecem muito presentes nos espíritos. Pensa que a reconciliação e a justiça são coisas compatíveis?»

Ele respondeu: «Sim. Os timorenses são um povo simples. Têm um sentido muito profundo da justiça. Por exemplo, se você me fizer mal, mesmo em criança, utilizando por exemplo uma palavra pouco conveniente, enquanto não der o primeiro passo, a mágoa, os sentimentos misturados, e mesmo a ferida continuam presentes. Dirá: é mais fácil que eu dê o primeiro passo. Como cristão, isso está certo. Mas, como timorense, sinto-me um pouco diminuído porque não me compete a mim fazê-lo. A partir do momento em que aquele que feriu dá o primeiro passo, tudo é completamente apagado.

O que, no fundo, o povo pede, é que o mal cometido seja reconhecido e que esse reconhecimento passe por um julgamento e uma pena de prisão, mas também por pequenos gestos que mostrem que o erro foi admitido. Sem estes gestos, por muito simples que sejam, a harmonia das relações entre as pessoas envolvidas não será restabelecida.

Estes gestos podem tomar a forma de encontros nas aldeias onde os autores dos crimes peçam para serem perdoados. Segundo os costumes tradicionais, eles podem sacrificar um animal para dar de comer a toda a aldeia. Isso é suficiente para assegurar a reintegração na sociedade local, uma vez que toda a gente constata que eles reconheceram a sua situação de criminosos. Eles terão apagado as suas más acções fazendo uma reparação honrosa.» (EDA n 354).

Última actualização: 10 de Agosto de 2004