Barcelona

Uma esperança a partilhar

De 28 de Dezembro de 2000 a 1 de Janeiro de 2001, dezenas de milhares de jovens, vindos de toda a Europa e também dos outros continentes, juntaram-se às paróquias e às famílias que os esperavam em Barcelona e nos seus arredores.

Os painéis de sinalização faziam passar os autocarros pela colina de Montjuic, através de um parque com palmeiras e cactos dando sobre o mar e que oferece uma magnífica vista de conjunto sobre a cidade. «Que bela cidade! Que luz! E que calor!» podia ouvir-se nos autocarros, em especial os que chegavam do norte da Europa.

Uma longa preparação

Jovens de numerosos países, tal como os da cidade e arredores, tinham-se preparado para o encontro durante vários meses. Mas foi para todos uma grande descoberta verem-se tão próximos! A alegria que marcou todo o encontro não se devia apenas ao temperamento mediterrânico dos Catalães, mas também a uma longa preparação interior.

«Enquanto os nossos hóspedes nos agradeciam, escreve Miguel, da paróquia de São João Baptista, dos arredores de Barcelona, eu é que tinha vontade de lhes agradecer. Que sorte imensa foi para os meus amigos e para mim ter podido acolher os jovens que chegaram à nossa paróquia vindos de França, da Hungria, da Ucrânia e da Polónia! Este encontro estava cheio da alegria de todos os participantes, trouxe um novo alento à paróquia. Agora um grupo de jovens começou a animar uma oração regular e a partilhar a nossa esperança participando na vida da paróquia.»

«Como fazer? Como encontrar lugares suficientes? Como iremos entender-nos? Quem vai animar os cânticos? Que podemos partilhar? Somos tão poucos!» Em Barcelona, estas perguntas surgiam frequentemente durante os encontros de preparação, como se os que tinham aceitado acolher sentissem que tinham sido apanhados desprevenidos. Alguns deles tinham já participado em encontros europeus ou até já tinham acolhido outros jovens há quinze anos atrás, aquando do anterior encontro em Barcelona. Contudo, era como se ainda fosse necessário transpor barreiras, ganhar de novo confiança em si mesmo, para ser capaz de oferecer um acolhimento caloroso e atento.

Alguns dias antes do Natal, ainda não se conseguia imaginar que mais de metade dos participantes seriam efectivamente acolhidos por famílias. É que houve pessoas que vieram oferecer alojamentos até ao próprio dia do acolhimento.

Toda a cidade se sentiu implicada por este acolhimento. Até a cadeia de televisão interna do metropolitano passava imagens de encontros europeus anteriores e convidava as pessoas a albergarem jovens com estas simples palavras: «Também pode acolher.»

Cerca de duzentas e cinquenta paróquias puderam receber entre cem e quatrocentos jovens, cada uma. «Para mim, era uma festa de Pentecostes, escreve uma mãe de família. Precisávamos deste sopro de ar fresco e ele manifestou-se primeiro através desta espantosa capacidade para nos entendermos apesar da falta de uma língua comum. Tal como os jovens não tiveram medo de se pôr a caminho, nós ultrapassámos o medo do estrangeiro, do desconhecido. O seu testemunho estimulou-nos. Era importante, em particular para os nossos filhos, ver que era possível vivermos juntos muito simplesmente. Na nossa paróquia também aprendemos a nos conhecermos melhor uns aos outros, a contarmos uns com os outros e, como depois do Pentecostes, temos vontade de testemunhar aquilo que recebemos. Esta visita de jovens peregrinos abre-nos para um espírito de alegria e de festa, e compreendemos melhor que o que está na fonte é a oração.»

Orações e workshops de reflexão

Em cada manhã nas paróquias, depois da oração comunitária, formavam-se grupos para ter encontros com testemunhos ou visitar lugares que davam um sinal de esperança. Os meses de preparação tinham permitido descobrir que milhares de pessoas em Barcelona participavam em projectos de solidariedade, de entre-ajuda, de acolhimento para os sem-abrigo em todos os bairros. «Para a nossa vida de Igreja local, dizia um animador da pastoral, a preparação do encontro foi uma ocasião única para nos descobrirmos sob um outro olhar, para esquecermos aquilo que frequentemente é demasiado pesado, as oposições e o desânimo. Era importante fazer esta experiência de uma grande generosidade e da alegria da comunhão. Por uma vez, estávamos juntos com gente de todas as gerações, com os que vão frequentemente à igreja e com os que lá não vão. Não esperem quinze anos para regressar!»

Cerca do meio-dia, todos se encontravam no Parque de Exposição, que fica situado em plena cidade e é rodeado por um belo espaço com muito sol, onde cada um podia almoçar ao ar livre. Quatro salões eram suficientemente grandes para abrigar a oração de todos os jovens, à tarde e à noite. Para apoiar a beleza da oração comunitária, alguns frescos catalães muito antigos, que ornamentavam as igrejas românicas da região, foram reproduzidos e colocados nos salões.

A numerosa presença de habitantes de Barcelona nas orações comunitárias fazia sentir a que ponto eles se tinham envolvido na aventura do encontro. O cardeal e outros bispos juntaram-se uma noite à oração comunitária, bem como Jordi Pujol, presidente da Catalunha, que tinha escrito anteriormente uma mensagem onde dizia: «Acolhemo-vos com alegria pela terceira vez na Catalunha... Estamos convosco no espírito de reconciliação, ecumenismo e oração contemplativa que vos conduzirá a um empenhamento no mundo. Este encontro irá trazer-nos sem qualquer dúvida uma espiritualidade simples, autêntica, cheia de frescura e ao mesmo tempo incarnada na realidade.»

Como relatar os vinte e cinco workshops de reflexão e de escuta que foram propostos durante as tardes? Alguns escutavam um coro litúrgico ortodoxo da Sérvia enquanto outros reflectiam sobre problemas da sociedade, como o da violência. Alguns, acolhidos no museu próximo dos salões, descobriram o lugar do Evangelho na arte catalã, da Idade Média a Gaudi. Outros escutavam uma introdução cujo tema era o chamamento de Deus. Numa das tardes um jovem detido foi autorizado pela prisão a vir dar um testemunho. Entre outras coisas, leu um texto de um dos seus companheiros de prisão que dizia: «Descobri Deus na prisão. Hoje em dia sou feliz, mesmo se a minha vida não é fácil. Li a carta do irmão Roger e retive estas palavras em particular: Deus é espírito... Vive sempre em nós: tanto nos momentos de escuridão como nos de plena claridade.» Outros jovens ainda estavam felizes por passarem algum tempo no salão arranjado para a oração silenciosa.

Testemunhar a felicidade da confiança

Como partilhar esta felicidade descoberta em conjunto? Esta é agora a pergunta que muitos fazem. A Carta «Pressentes um chamamento à felicidade?» dá algumas pistas: «Cristo chama-nos, a nós pobres do Evangelho, a viver a esperança de uma comunhão e duma paz; e que ela irradie à nossa volta.»

Foi antes de mais esta experiência de comunhão que foi vivida. E isso foi possível graças à dádiva pessoal de muitos: esses milhares de pessoas de contacto de todos os países que aceitaram ficar responsáveis por um grupo, por um autocarro; os de Barcelona, responsáveis de paróquias, directores e guardas de escolas que abdicaram das suas férias para acolher, funcionários da cidade que deram o seu melhor para que tudo corresse bem, nomeadamente a chegada e a partida dos autocarros.

Se é verdade que Barcelona é uma cidade que gosta de organizar festas, é também uma cidade de fidelidade. Assim, há mais de vinte anos que uma oração reúne jovens ao domingo à noite numa igreja do centro da cidade. Há um grande desejo de prosseguir uma oração regular em muitas paróquias. Haverá certamente numerosas iniciativas, como a de uma paróquia que quer propor doravante uma catequese para adultos: «Os jovens deram-nos um testemunho de fé viva. Se pelo nosso lado não sabemos o que está no centro da nossa fé, como podemos esperar transmitir o essencial à nossa volta?»

Para concluir, porque não reter, como escrevia um Catalão, uma frase ouvida no dia 1 de Janeiro no metropolitano cheio a abarrotar, no momento em que os jovens com as suas mochilas partiam em direcção aos seus autocarros: «Não se inquietem, estamos à vossa espera»: «Alguns viram nesta frase um sentido mais profundo do que o de sossegar os que estavam preocupados com os atrasos. Não se inquietem, vocês viram que era possível uma comunhão com os outros, com Deus. Não se inquietem, estamos a caminho juntos e esperamos uns pelos outros, não queremos deixar ninguém sozinho. Estamos à vossa espera porque precisamos de estar juntos para testemunhar a felicidade da confiança.»

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