Textos bíblicos com comentário

Estas meditações bíblicas são sugeridas como meio de procura de Deus no silêncio e na oração, mesmo no dia-a-dia. Consiste em reservar uma hora durante o dia para ler em silêncio o texto bíblico sugerido, acompanhado de um breve comentário e de algumas perguntas. Em seguida constituem-se pequenos grupos de 3 a 10 pessoas, para uma breve partilha do que cada um descobriu, integrando eventualmente um tempo de oração.
2019

Outubro

No princípio...: João 1,1
No princípio, quando Deus criou os céus e a terra... (Génesis 1,1)
 
Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. (Marcos 1,1)
 
No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus. (João 1,1)

Há um nome que dá gosto aos princípios. Há um nome e uma vida que autoriza os novos princípios ou, se preferirem, que dá poder aos princípios.

Conhecemos esse nome e essa vida através dos evangelhos. Dois deles inseriram a palavra «princípio» desde a primeira linha dos seus escritos acerca de Jesus Cristo. O prólogo do Evangelho segundo S. João é bem conhecido. De maneira ainda mais sóbria, podemos ler em Marcos: «Princípio do Evangelho de Jesus Cristo…» - Marcos ficaria sem dúvida bem desiludido connosco se como leitores entendêssemos apenas: «aqui está o princípio do meu Evangelho».

Entre muitas outras coisas, o que Marcos nos quer dizer é que é proposto a todos os leitores dos seus escritos um princípio totalmente novo. A aparição da personagem de quem ele vai falar marca um princípio capaz de renovar tudo. É inclusivamente o nome dado a Jesus no último livro da Bíblia: «Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim» (Ap 22, 13).

No seu Evangelho, João inspirou-se certamente no Génesis: «No início Deus criou o céu e a terra…». Os especialistas concordam em dizer que não se trata de um início absoluto. A tradução, palavra a palavra, seria: «Num princípio em que Deus criou o céu e a terra, a terra era deserta e vazia…», quer dizer que Deus não parte do nada. Ele organiza um caos, ele coloca ordem no caos.

Um profeta mostrou-se particularmente atento a este facto. Trata-se da segunda parte do livro de Isaías, foi o autor bíblico que empregou mais frequentemente o verbo «criar». O segundo Isaías é fiel à intuição do Génesis, mas já não diz respeito à profecia do caos da natureza, mas do caos da história, do caos que os seres humanos produzem.

Isaías escreve numa época muito sombria. O seu povo foi aniquilado e deportado, o seu país estava em ruínas. Ruínas e uma imensa fadiga, um cansaço que conquistara todo o povo. E eis que Deus envia o seu profeta para dizer que vai criar algo novo. Isaías faz entender que Deus continua a criar e que ele cria a partir do que os humanos lhe colocam nas mãos.

No final da segunda guerra mundial, uma mulher, pertencente também ao povo de Isaías, saiu do desespero em que o Holocausto a tinha mergulhado, lendo uma frase de Santo Agostinho. Hannah Arendt, uma filósofa nascida na Alemanha, mas que viveu as últimas três décadas da sua vida nos Estados Unidos, tinha lido bastante acerca de Agostinho, que não compreendia sempre, e com quem foi por vezes pouco justa. Mas foi este Agostinho que soube reacender nela a esperança.

Ela achava que Agostinho escrevia num clima de fim do mundo, clima que ela encontrava no meio dos seus contemporâneos na Europa e na América do pós-guerra. Terminando o seu grande livro, muito sombrio, acerca do totalitarismo, ela cita Agostinho na última página. E o seu tom muda, o seu tom torna-se radicalmente diferente. Eis as palavras de Agostinho: «O Homem foi criado para que houvesse um princípio.» Até ao fim da sua vida, ela nunca vai esquecer estas palavras de Agostinho.

Preocupada com o futuro das nossas sociedades, via nas palavras de Agostinho um chamamento dirigido a cada ser humano. Considerava que Agostinho teria compreendido que o que faz realmente de nós seres à imagem de Deus é a nossa capacidade de começar, de empreender, de fazer surgir o novo. E, segundo ela, esta capacidade deve ser guardada. «Começar» era uma maneira de resistir ao fatalismo, de dizer não a tudo o que destrói esta vocação humana, de dizer não ao derrotismo.

As narrações da criação que encontramos na antiguidade, nomeadamente em certas religiões que Israel pôde conhecer, comparam o caos primitivo a uma fera que Deus deve vencer. Essa fera está ausente nas narrações da criação contidas na nossa Bíblia. Mas a fera está presente na história humana sob a forma de violência, guerra, morte, e ainda talvez, diríamos nós hoje, da destruição da criação. Dando ao ser humano o poder de «começar», que quer dizer agir produzindo o novo, Deus dá ao Homem o poder de vencer essa fera ao longo da história.

- Onde vejo, à minha volta, novos princípios que dão esperança?

- Na nossa maneira de viver e de contar o mundo, como poderemos ser daqueles que dão vontade aos outros de estar do lado dos princípios?



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