Bangladesh

Peregrinações com pessoas deficientes

Há irmãos de Taizé que vivem no Bangladesh desde 1974. Nos últimos anos têm trabalhado com pessoas deficientes. Um dos irmãos fala sobre algumas peregrinações de confiança que os irmãos organizaram para deficientes, em 2003.

Em Diang, perto de Chittagong

Na mesma altura em que começava a guerra no Iraque iniciava-se a primeira de quatro peregrinações de confiança com deficientes no Bangladesh. Como é evidente, ninguém fez com que as duas situações coincidissem, mas em Diang, perto da cidade portuária de Chittagong, no sul do país, a peregrinação de confiança tornou-se como um grito unânime pela paz.

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Era a primeira peregrinação para deficientes em Chittagong. As pessoas eram oriundas da região das colinas – alguns budistas, outros cristãos. Eram todos chakmas ou tripuras, pertencentes aos diferentes grupos das minorias étnicas que muito sofreram nos últimos anos. São grupos que temem pelo seu futuro num país onde a maioria bengali se torna cada vez mais poderosa. Estavam também presentes cristãos bengalis, descendentes de bengalis que se tornaram cristãos há vários séculos e a quem tinham sido dados nomes portugueses. Um terceiro grupo, mesmo de Mymensingh, era composto por muçulmanos e cristãos da etnia minoritária garos.

Todos se puseram a caminho em conjunto, ajudando-se mutuamente. Os cegos de um grupo foram guiados por pessoas de outro grupo com boa visão. Uma criança cristã foi levada «ao colo» por um jovem muçulmano. Uma mulher tripura, cega, que nunca tinha viajado antes, despertava a emoção de todos com as histórias tristes da sua aldeia, próxima da fronteira com a Birmânia. Um pai, com o seu filho deficiente profundo nos braços, trazia a cruz aos ombros, apoiado por uma jovem japonesa.

Estes dias passados em conjunto foram uma experiência formidável de paz e de alegria, as pessoas descobriam-se umas às outras e acolhiam-se tal como eram. Os muros caíam à medida que cada um se tornava vulnerável.

Dinajpur

Uma semana mais tarde, um grupo de muçulmanos, hindus e cristãos de Mymensingh pôs-se a caminho de Dinajpur, no noroeste do país. O lugar era uma grande paróquia, e cerca de 500 pessoas da região participaram. Algumas vieram em autocarros especiais, outras tinham viajado durante horas em autocarros locais sobrelotados, e das aldeias mais próximas deslocaram-se em «rickshaw» (pequenas carroças puxadas por uma bicicleta). Dado que raramente há cadeiras de rodas disponíveis nas aldeias, foi preciso trazer um grande número de cadeiras de Mymensingh, especialmente para este encontro. Isso permitiu aos inválidos deslocar-se mais facilmente entre os diferentes locais: alojamento, refeições, orações e encontros.

Para alguns, foi a sua terceira peregrinação, para outros a primeira. Uma mulher santal sem pernas e com uma única mão, foi aí levada pelo seu filho. Durante as peregrinações precedentes, ficou com ela. Desta vez, regressou a sua casa para estar com o seu pai doente, sabendo que haveria numerosas mãos para ajudar a sua mãe. Ainda que totalmente dependente, esta mulher encorajava os outros ouvindo-os partilhar os seus sofrimentos e, com a sua única mão, levava a cruz na cadeira de rodas durante a Via Sacra.

Como durante as peregrinações anteriores, as horas de partilha foram muito curtas. De início, a timidez e as limitações de cada pessoa suscitavam receio, medo de partilhar, de admitir as suas feridas, de ir ao encontro do outro, mesmo que o coração de cada um o pedisse ardentemente. Havia os corpos feridos, mas outros tantos corações feridos, mesmo entre os que vieram para ajudar sem ser deficientes. Quando Bapi, um jovem hindu de cadeira de rodas, contou como a sua vida se modificara no momento em que aceitou «não poder sair sozinho», as portas de numerosos corações abriram-se. Azad, um jovem muçulmano vindo com as Irmãs de Madre Teresa desde Rajshahi, falava do seu sofrimento por não poder fazer algo pelos numerosos participantes vindos de longínquas aldeias isoladas. No meio das lágrimas e gritos de encorajamento, as pessoas compreendiam que a escuta com amor era o início da cura que cada um tinha vindo procurar.

Baromari

Uma semana mais tarde, uma outra etapa da peregrinação: desta vez em Baromari, onde outros encontros havia já decorrido em 2001 e 2002. Numerosos jovens vieram desta região para ajudar os peregrinos e participar eles mesmos. As peregrinações precedentes tinham dado que falar. Estes jovens deixaram os seus estudos e fizeram várias horas em bicicleta para descobrir por si próprios como o serviço aos mais fracos pode conduzir à amizade e à partilha.

Baromari situa-se nas colinas perto da fronteira indiana, e foi nestas colinas que teve lugar a Via Sacra. Foram necessários cinco jovens fortes para levar cada uma das pessoas em cadeira de rodas; também as que usam bengala precisavam de ajuda. O jovem Judas, quase cego, aceitou levar a cruz, e Wilson, de rosto desfigurado por um tumor, ofereceu-se para o ajudar.

À noite, no decurso de um encontro para cantar a Cristo ressuscitado e dançar segundo a tradição dos garos, até as cadeiras de rodas começaram a dançar! De seguida, todos colocaram a sua vela ao lado da grande cruz, e começou a refeição da noite. Podia ver-se a cruz de longe, no meio da luz das velas. Era como que o símbolo da peregrinação: as dores e sofrimento não haviam desaparecido, mas a luz do Cristo ressuscitado envolvera-os e penetrara-os.

Nagori

Depois das colinas de Baromari, no extremo norte do país, uma semana mais tarde a peregrinação estava em Nagori, uma aldeia cristã perto de Dhaka. Os deficientes nunca anteriormente tinham passado a noite nesta aldeia, fielmente cristã desde há muito. Cerca de trezentas pessoas encontraram-se aí pela primeira vez. A Páscoa estava próxima e a guerra no Iraque continuava. Era a última peregrinação do ano, a última etapa destas peregrinações através do Bangladesh, tornadas pouco a pouco como uma só oração pela paz. Todos se reencontraram para pintar em conjunto um cartaz: «amra shanti chai», « queremos a paz». De seguida, caminharam para trás em silêncio, até ao local da última oração.

Aprender a caminhar juntos, na esplêndida diversidade da família humana, acolher os dons de cada pessoa, de cada cultura, de cada religião, é a possibilidade de descobrir a fonte da confiança. Quando as pessoas se tornam vulneráveis em conjunto, é-lhes dado um novo espírito. Não um espírito de medo, mas de confiança em Deus: Deus que só pode amar e que nos concede que, na nossa fragilidade, nos tornemos portadores desta confiança e desta paz no meio de um grande número de pessoas.

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