Rússia: Março de 2010

O cálice da paciência

Dois irmãos estiveram na Rússia em Março. Um deles partilha as suas impressões.

Encontrarmo-nos na Rússia durante o período da Quaresma pela primeira vez desde há vários anos coloca-nos diante de numerosas surpresas. Em quase todos os cafés e restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, era proposto um «menu de quaresma». Na tradição ortodoxa, o jejum da Quaresma é muito importante. A oferta de tais ementas mostra até que ponto as questões de fé fazem agora parte da vida pública. Mas, no primeiro domingo da nossa estada, uma carta pastoral do Patriarca Kirill, lida em cada paróquia durante a Santa Liturgia, sublinhava que a Quaresma não é simplesmente uma questão de alimentação ou de regras externas. Escrevia aos fiéis que a Quaresma é um tempo para nos aproximarmos de Deus e do próximo. A fé em Deus é inseparável de gestos de compaixão e de bondade para com aqueles que nos rodeiam.

Visitar os jovens que tinham participado no Encontro Europeu de Poznan, no início do ano, deu-nos igualmente muita alegria. Muitos deles tinham sido tocados pelo acolhimento polaco, um acolhimento que não esperavam. Insistiram fortemente na importância de estarmos junto dos que nos rodeiam para nos encorajarmos uns aos outros a aprofundar a fé nas nossas próprias igrejas. É necessário ter coragem para viver do Evangelho. Na sociedade russa de hoje, há tantas opções para escolher que, se queremos seguir Cristo, torna-se fundamental avançar no caminho da fé. Como o irmão Alois escreveu «na Carta da China», devemos organizar os nossos desejos e ter paciência para descobrir onde devemos colocar as nossas prioridades. Dois encontros nas paróquias do centro da cidade de Moscovo revelaram igualmente a importância da comunidade local para apoiar os jovens e alimentar a sua fé.

A cidade de Kemerovo fica a quatro horas de voo de Moscovo. A aterragem e a descolagem sobre uma pista coberta de neve não são recomendadas a corações sensíveis, a não ser que sejam de siberianos! A diocese ortodoxa de Kemerovo e de Novokouznetsk conheceu um desenvolvimento muito rápido durante os últimos quinze anos. Antes da perestroïka, só havia uma igreja aberta em cada cidade. Agora há quinze lugares de culto em Kemerovo e um pouco menos em Novokouznetsk. Mas não é simplesmente uma questão de construções. Construir comunidades tornou-se a prioridade. Em cada cidade, há um liceu ortodoxo. Em Novokuznetsk encontra-se o seminário diocesano. Os padres estão a trabalhar em residências de estudantes das universidades desta vasta região de minas de carvão. Possibilidades de ensino e partilha da fé estão agora disponíveis como nunca o estiveram anteriormente. Há um incrível dinamismo e um entusiasmo nos que estão comprometidos devido à sua fé. E, graças a eles, pode-se sentir o calor do acolhimento siberiano!

Em São-Petersburgo, há uma estação de rádio cristã que tem emissão aberta em directo. Os locutores recebem as perguntas dos ouvintes. Mesmo a meio do dia, um bom número de pessoas faz perguntas sobre a fé, outro sinal que mostra que a expressão da fé é agora admitida. «O amor é um dom de Deus ou devemos aprender a amar?» perguntou um ouvinte. Não sei se teríamos encontrado perguntas de tal profundidade no Ocidente. Parece que muitas pessoas se deparam com problemas importantes na sua vida. Ousamos levar a luz do Evangelho sobre tais perguntas?

Mas voltemos à Sibéria. Nos subúrbios de Novokouznetsk encontra-se a igreja de madeira de São João, o Soldado. A paróquia foi aberta em 1994. Actualmente, a igreja está terminada. O padre mostrou-nos os ícones, centro da liturgia, e as relíquias dos mártires, sinal de comunhão com todos os santos. Seguidamente chamou a nossa atenção para um ícone de Nossa Senhora e do Menino, no qual Maria aproxima um cálice da boca de Jesus. Explicou que o ícone foi pintado por uma senhora da paróquia. Tinha visto a imagem na vidraça da sua janela, numa manhã de Inverno, e começou a pintar um ícone em função do que via, algo que nunca havia feito anteriormente. Não sabia como se devia chamar o ícone. Seguidamente, reflectindo sobre a sua vida, compreendeu que Deus lhe pedia para ser paciente em numerosas situações. E, agora, o ícone é conhecido como «o Cálice da Paciência». Deste cálice, Jesus recebe a paciência de que precisa aquele que é manso e humilde de coração.

E, de repente, parecia que o Espírito tinha falado. Das profundezas desta tradição, diferente das que conheço, nas profundidades do Inverno siberiano, Deus vinha dizer: «Sejam pacientes.» A todos os que viram o ícone e a também a mim. E foi isto que recebi desta viagem à Rússia.

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