Textos bíblicos com comentário

Estas meditações bíblicas são sugeridas como meio de procura de Deus no silêncio e na oração, mesmo no dia-a-dia. Consiste em reservar uma hora durante o dia para ler em silêncio o texto bíblico sugerido, acompanhado de um breve comentário e de algumas perguntas. Em seguida constituem-se pequenos grupos de 3 a 10 pessoas, para uma breve partilha do que cada um descobriu, integrando eventualmente um tempo de oração.
2020

Fevereiro

Dei-vos um exemplo: João 13, 1-7
Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo. O diabo já tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a decisão de o entregar. Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. Chegou, pois, a Simão Pedro. Este disse-lhe: «Senhor, Tu é que me lavas os pés?» Jesus respondeu-lhe: «O que Eu estou a fazer tu não o entendes por agora, mas hás-de compreendê-lo depois.» (João 13, 1-7)

Na passagem do lava-pés, João pega num conceito base da tradição religiosa do antigo testamento bem como das religiões do mundo em geral. Para a humanidade se apresentar perante Deus, para se ter comunhão com ele, temos que ser puros. Consequentemente, as religiões criaram sistemas de «purificação» que possam permitir aos Homens estar com Deus.

No entanto, Jesus muda fundamentalmente este conceito de pureza. Em Mateus 5,8, Jesus diz: «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.» A pureza de Jesus nada tem a ver com rituais. Tem a ver com o nosso coração e o que permitimos que entre no nosso coração.

Surge então a pergunta: Como nos podemos tornar puros de coração? Significa que devemos substituir o rito da purificação pela moralidade? É então suposto que a mensagem de Jesus seja simplesmente entendida como uma lição de moral?

No princípio do Evangelho de João, João diz-nos que Jesus é a palavra de Deus feita carne. É através de Jesus que compreendemos o amor e a compaixão de Deus para connosco. Este amor não é apenas para determinados aspectos da nossa existência humana, mas também inclui o nosso ser físico e espiritual. Jesus é o «sim» de Deus a tudo o que existe.

Na passagem de João 15,3, Jesus diz, «Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado». É a Palavra de Deus que entra em nós, transforma o nosso pensamento e a nossa vontade, em suma o nosso «coração». Deste modo abre o nosso coração, para que se torne um coração mais atento. Estamos prontos para receber a palavra de Jesus nas nossas vidas? Estamos prontos para acreditar nestas boas novas?

Permanece um mistério, a nossa dificuldade em deixarmo-nos ser amados. Por vezes não nos sentimos dignos. Não somos capazes de acolher as palavras que nos curam. Isto transparece no lava-pés. Lavar os pés a alguém é um acto muito íntimo. Na Bíblia, os pés eram vistos como a parte mais vulnerável do corpo. Revelarmo-nos onde somos mais vulneráveis e onde sentimos culpa, nem sempre é fácil. Julgamos que conseguimos lidar com tudo sozinhos. Mas se mantivermos a nossa fraqueza e a nossa culpa escondidas algures dentro de nós, sentirnos-emos envenenados por dentro.

E logo, porque somos fracos e porque por vezes é difícil ter fé em Deus, Jesus convida-nos a que lhe mostremos os nossos pés sujos, a que lhe contemos as nossas dificuldades. Convida-nos a lavarmos os pés uns aos outros. A que nos ajudemos uns aos outros.

Fazermos o que Jesus fez, lavarmos os pés uns aos outros, não deve ser visto como uma ordem moral. É antes a consequência da dinâmica interior que vem do presente que Deus nos deu. É esse presente de fé e de amor que transforma o nosso ser. Paulo exprime isto na passagem aos Gálatas 2,20: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.»

Fazemos o bem aos outros, não porque temos de o fazer, mas porque isso é o que nós realmente somos. Deixar a palavra de Jesus crescer em nós pode levar-nos muito longe! Em João 14,12, Jesus diz: «quem crê em mim também fará as obras que Eu realizo; e fará obras maiores do que estas».

Contudo, é também verdade que é apenas ao aceitarmos continuamente as palavras regenerativas de Jesus, e ao permitirmos que os nossos pés sejam por ele lavados dia após dia, que aprenderemos a fazer pelos outros, com ele, o que ele fez por nós.

- Para mim, o que significa colocar-me ao serviço das pessoas?

- O que nos pode transmitir acerca de Deus o gesto de Jesus?



Outras meditações bíblicas:

Printed from: http://www.taize.fr/pt_article175.html - 19 February 2020
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