Páscoa 2020

Surge uma nova luz

Domingo 12 de Abril de 2020 | Taizé, Isba


No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. A seguir, os discípulos regressaram a casa. (João 20,1-10)

Enquanto somos atormentados diariamente com notícias sombrias, pedimos a Deus que venha em auxílio da nossa humanidade em provação, não apenas pelos danos do coronavírus, mas por muitos outros sofrimentos. Confiamos-lhe aqueles que adoeceram, os seus familiares, aqueles que cuidam deles.

Imploramos a Deus. Mas estejamos atentos a não nos fecharmos na nossa angústia enquanto esperamos passivamente que passe esta provação e que tudo volte ao que era antes. Imploramos a Deus, mas Deus também nos implora e gostaria que o ouvíssemos. Poderia muito bem querer dizer-nos: Acordem!

Não que Deus castigue a humanidade. Não, nunca! Ele é o Deus da compaixão. Está próximo de todo o ser humano. Ele «apenas pode dar o seu amor», segundo as palavras de um crente do Oriente do século VII, Isaac de Nínive, que o irmão Roger repetia frequentemente.

Sim, Deus ama cada um de nós. É porque nos ama que fala connosco. Será que não nos quer dizer: vejam o quanto dependem uns dos outros, entre pessoas próximas, mas também entre países e entre povos. Vejam o quanto precisam da fraternidade humana. Vejam o quanto é necessário para o vosso futuro cuidar da Criação.

A pandemia que nos está a agredir destaca repentinamente a necessidade de mudanças profundas nas nossas sociedades. Por exemplo, continuam a gastar-se quantias astronómicas em armamento enquanto uma pequena fracção desse dinheiro seria suficiente para restaurar a dignidade humana a tantas pessoas que estão privadas dela.

São muitos os que assumem corajosamente o desafio da solidariedade. Eles entregam-se para que, face à epidemia, a vida continue, às vezes pondo em risco a sua saúde ou a sua própria vida.

Sim, a provação que estamos a atravessar contém um apelo à fraternidade e muitos sabem como lhe podem responder. Mas, para além disso, qual poderá ser hoje a luz que nos traz a mensagem pascal?

Na manhã de Páscoa, Maria Madalena chega junto dos apóstolos com a notícia de que o túmulo está vazio. Podemos imaginar o susto que apanharam. Ao desastre da morte infame de Jesus na cruz acrescenta-se uma calamidade: fizeram desaparecer o seu corpo. É como se desaparecessem todos os vestígios da grande esperança que ele tinha suscitado. Pedro e João vão a correr ao túmulo. Quando chega, Pedro olha e permanece interrogativo. O outro discípulo «vê e acredita».

O que será que leva esse discípulo à fé de forma tão espontânea? Como pode ele reconhecer no túmulo vazio que Jesus ressuscitou? Nunca o saberemos. A única pista é que, nesse mesmo momento, ele parece compreender algo das Escrituras. Será que, de repente, ele se lembra destas palavras de um Salmo: «Não deixarás o teu fiel conhecer a sepultura»? Será que, perante o túmulo vazio, ele pensa para si mesmo: é verdade, não tinha pensado nisso, não tinha compreendido?

A realidade da ressurreição de Jesus ultrapassa-nos, não se demonstra racionalmente, mas abre horizontes desconhecidos. A doença, a violência, a morte deixam de ter a última palavra. Surge uma nova luz. Ela não só muda completamente a maneira como encaramos a vida, mas também transforma aqueles que a recebem e liberta neles energias inesperadas. Leva os discípulos de Jesus a formar uma comunidade que irradia a própria vida de Deus.

Há muitas pessoas que vivem com muita dificuldade o confinamento que nos é imposto – penso nas pessoas que estão sozinhas, nas famílias que moram em casas muito pequenas, naquelas que estão separados das suas famílias, nos sem-abrigo. No entanto, esperemos que este confinamento não restrinja o nosso horizonte. Que a mensagem pascal nos abra a novas dimensões, vastas e amplas.

Na oração, mesmo quando é pobre, podemos acolher a luz da mensagem pascal. Podemos descobrir que é possível mudar o nosso comportamento pessoal e colectivo, tendo em vista outro futuro para nós e para a humanidade. Podemos deixar surgir em nós a imaginação necessária para pormos em prática novas solidariedades.

Cristo Ressuscitado envia os seus discípulos por todo o mundo, não para trazer toda a humanidade ao mesmo sistema religioso, mas para que as suas vidas irradiem a esperança de paz na Terra e de plenitude para toda a Criação.

Então, deixemo-nos atingir pela luz pascal e saudemo-nos com esta notícia da manhã de Páscoa: «Cristo ressuscitou!» – «Sim, ressuscitou verdadeiramente!»

Irmão Alois

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