Visitas a Timor Lorosae

Visitas em 2012

No Outono, um irmão visitou Timor Leste. Deixa aqui impressões da sua estada.

Um povo capaz de ousar confiar

Ao começar a escrever a crónica destes 10 dias em Timor Oriental, pergunto-me o que mais me marcou, que imagem fica das minhas visitas anteriores e mais especialmente desta última?

Sem dúvida alguma a de homens e mulheres em marcha, avançando para um objectivo. Fora da cidade esta imagem seria diferente, mas na capital, em Dili, é marcante. Nas minhas crónicas anteriores, falava do contraste arrebatador entre a extrema beleza do mar de um lado, da montanha do outro e de todos os homens jovens sentados ao longo da baía, nas ruas, tentando vender cartões telefónicos. Agora já não se arrasta, caminha-se, vai-se em direcção a …!

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Na última tarde houve um encontro com jovens de diferentes igrejas protestantes no YMCA. É sempre uma festa ser acolhido pelo Senhor Horácio, o generoso director que convida largamente jovens de todas as idades! A minha visita foi bem preparada, com um encontro nas três dioceses. Havia um convite de Laga, que é na diocese de Baucau. Chegado de véspera, permitiu-me ver melhor os locais e decidir com o padre da paróquia onde se poderia desenrolar a oração do domingo de manhã. Pudemos participar na missa paroquial, magnificamente cantada, e convidar os paroquianos a juntar-se à oração da noite. Na tarde, ensaiámos os cânticos e também escolhemos alguns cânticos em Makai, uma língua local. À noite, pouco a pouco, toda a gente chegou; era impressionante pois deviam estar mais de 200 pessoas. A oração à volta da cruz respondia a uma necessidade pois Laga foi durante muito tempo um local de violências e daí uma profunda necessidade de reconciliação. Depois da oração, a irmã e o padre diziam-me: «Sabe, houve verdadeiras reconciliações!» Tinham visto pessoas partilhar este gesto que em Timor significa que se perdoam. Segundo o bispo, a oração como é vivida em Taizé permite aos Timorenses exprimir a sua religiosidade profunda.

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Em Tibar, que pertence à diocese de Magliana, a oração foi cheia de surpresas. No princípio estava prevista para os jovens em formação nas diferentes congregações religiosas. Mas a paróquia e sobretudo os jovens e as crianças chegaram em massa. Deste modo, no momento da partilha em grupos, foi preciso reunir as crianças e ter uma animação mais apropriada. Em cada grupo foi discutido o tema deste ano: «abrir caminhos de confiança entre os humanos». Das crianças vieram talvez as respostas mais belas.

Na diocese de Dili, foi na escola Don Bosco que se reuniram os jovens. Mas o encontro mais forte foi a oração com 150 prisioneiros na prisão de Becora, em Dili. Entre eles alguns Filipinos e Indonésios. Os Timorenses são musicais e todos cantam de todo o coração cânticos que nem sequer conheciam uma hora antes. Muitos vieram de seguida saudar, apertar a mão, agradecer.

Um grande esforço é feito para a educação dos jovens, tanto da parte do governo como da Igreja.

A língua continua um problema. Se há alguns anos o indonésio era conhecido e ensinado, agora esta língua deixou lugar ao português mal ensinado por falta de uma formação adequada para os professores. O Tetun é falado mas não é tão rico para poder exprimir-se como deve ser. É por isso que o ensino é uma prioridade. O governo pôde finalmente fazer todo um trabalho de unificação e estabelecer normas e critérios aos quais são submetidas as instituições, tanto escolas como universidades onde os níveis estavam tão desequilibrados. A Igreja abre uma universidade e os Jesuítas edificam uma “junior high school”. É impressionante pois um ano antes formam professores para ter não só o nível académico necessário mas também o método de ensino, os valores. Motivam-nos de uma forma notável.

Muitos jovens sentem um chamamento a seguir a Cristo no sacerdócio ou na vida religiosa. Pouco a pouco vemos desenhar-se um futuro e só podemos estar reconhecidos pela coragem deste povo capaz de ousar confiar.


Em 2011: «Temos que atravessar o presente»

Um dos irmãos de Taizé vai regularmente a Timor Leste e regressou a este país em Maio de 2011. Ele partilha nesta página algumas reflexões sobre a sua visita:

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«Há uma grande esperança para o futuro, mas agora temos que atravessar o presente», disse-me um amigo que encontrei quando cheguei a Díli.

«Uma grande esperança para o futuro»… Fui visitar a comissão diocesana de pastoral juvenil de Díli. O local onde trabalham é muito pequeno e estreito e temos a impressão que a equipa está ali a acampar. Mas a Jessica, uma das jovens que lá trabalha a tempo inteiro, acolheu-me dizendo com muita convicção: bem-vindo à nossa sede, que é simples mas cheia de alegria, de esperança e de amor. Havia tanta convicção na sua voz que apenas podia ver aquele local com um olhar cheio de admiração.

Fiz a mesma experiência ao encontrar os 190 jovens do Seminário Menor, com os rostos muito abertos, prontos para descobrirem algo de novo que não faziam ideia do que seria. Os animadores deixaram-me sozinho com os seminaristas, sem tradutor, com um DVD que não funcionava… e os seminaristas continuaram abertos, curiosos e muito presentes no momento da oração.

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«Agora temos que atravessar o presente». Quando estive em Timor no ano passado, pareceu-me pela primeira vez que tinha havido mudanças, que um longo caminho tinha sido percorrido. Há três anos que não há violência e politicamente o país está mais estável. Em 2012 haverá eleições e a campanha eleitoral, tal como o resultado das eleições, será um teste e uma indicação para o futuro do país.

Em 2010 vieram peritos e advogados da Austrália discutir questões entre Timor e a Austrália ligadas à exploração do petróleo no mar de Timor. O acordo prevê uma partilha equitativa do lucro entre os dois países. Em Outubro do ano passado foram distribuídos os primeiros lucros.

Num plano muito concreto, a necessidade mais urgente parece ser a formação a todos os níveis. Há decénios a recuperar e, depois de dez anos de independência, muitas pessoas dizem que as coisas avançam demasiado devagar. No entanto as iniciativas existem, como o «Teachers Training College» onde o ensino se fará em português (a língua oficial) e em inglês. Isso deverá permitir um ensino que desenvolva as qualidades criativas dos estudantes. É como se tudo estivesse presente em potencial, mas falta ainda um despertar.

Também há iniciativas mais básicas: a comissão de pastoral juvenil da Igreja Católica deu cursos de bases de informática, que se tornou indispensável para encontrar trabalho. As irmãs salesianas abriram uma padaria para que as jovens que estudam em casa delas tenham um trabalho que lhes permita ganhar o suficiente para alimentar as suas famílias.

Para todos os que se empenham neste combate, trata-se verdadeiramente de um acto de fé. Esta confiança é admirável e contagiosa.


Em 2010

Em Julho de 2010, um irmão visitou Timor Leste. Aqui, partilha algumas das suas reacções.

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Quando chegamos a Timor Leste, o avião aterra sobrevoando o mar. A estrada para a cidade estende-se ao longo da baía. Cada vez que vim cá tive a mesma reacção: «Que país tão bonito!» Mas assim que entrava na cidade, havia sempre vestígios de guerra: casas abandonadas, janelas sem vidros… Desta vez há uma mudança, para melhor. Há novos edifícios, algumas estradas são iluminadas, já não há tendas com refugiados, as pessoas que foram desalojadas voltaram às suas casas.

As comissões de pastoral juvenil das três dioceses (Dili, Baucau e Maliana) prepararam um programa excelente. Convidaram delegados de cada paróquia. Em várias ocasiões, houve dias de reflexão inspirados na «Carta da China» e vários workshops sobre «como preparar uma oração meditativa».

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Os jovens que participaram no Encontro de Manila fizeram uma partilha muito boa sobre as suas experiências. Foi a primeira vez que eles estiveram fora do seu país e descobriram muitas coisas. Descobriram, por exemplo, que também têm algo para oferecer aos jovens de outros países. A semana que passaram em Manila teve um grande impacto neles, especialmente naqueles que foram para algumas zonas tribais.

Além dos encontros diocesanos, houve também metade de um dia para postulantes e noviças de diferentes comunidades religiosas.

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Quantas coisas mudaram desde a minha primeira visita em 1991! Os jovens estão extremamente motivados e muitos deles parecem muito maduros: uma mistura de timidez e de uma clara consciência da sua identidade timorense. Em comparação com outros países Asiáticos, há uma grande diferença comportamental, bem como no modo de se expressarem.

Aos domingos, as Igrejas transbordam de gente. Os jovens estão conscientes do papel que a Igreja tentou ter para o regresso da democracia e o quanto isso mostrou a solidariedade com o povo.

Os três Bispos insistem na importância da oração. É claro que as feridas do passado ainda estão presentes. Um jovem disse-me que ainda há surtos de violência, na sociedade e nos lares, nas famílias. Eu perguntei-lhe como é que os jovens reagiam. Ele disse-me que o problema reside no facto de alguns pais transmitirem um espírito de vingança às suas crianças e que é a sua geração que tem que encontrar «a porta estreita» entre o «não esquecimento» e o perdão.


Em 2009

De sexta-feira 13 a sexta-feira 20 de Março de 2009, tiveram lugar em Timor Leste vários encontros com a presença de um irmão de Taizé. Ele escreveu:

Vulneráveis e fortes

Foi a primeira vez que um retiro foi proposto aos jovens da Diocese de Dili. As Irmãs do Sagrado Coração ofereceram hospitalidade na sua casa na aldeia montanhosa de Bazartete. Na casa há um infantário que, para a ocasião, foi transformado em local de silêncio.

A equipa de pastoral juvenil convidou todas as paróquias a enviarem dois jovens, e acabaram por participar 45. O centro da reflexão foi a Carta do Quénia e, com o objectivo de encorajar os jovens a assumirem um papel activo, foram convidados a fazer cartazes que ilustrassem as questões que haviam sido colocadas: «De que fontes vivemos nós?» e «o que nos ajuda a limpar aquilo que obstrui essas fontes?»

Na tarde de domingo, os participantes no retiro desceram a Dili para uma oração aberta a todos, especialmente àqueles que não puderam deslocar-se a Bazartete. Houve dois problemas: o lugar previsto para a oração estava a ser usado para outra actividade e uma chuva torrencial provocou um corte de energia. Apesar de tudo, foi possível rezarmos juntos com algumas centenas de jovens.

Em Venilane, na Diocese de Baucau, estava à nossa espera outro desafio. Algumas centenas de jovens, com idades entre os 10 e os 25 anos, vieram não só das paróquias e das escolas salesianas, mas também de perto de Fatumaca. As folhas cânticos para a oração e a Carta do Quénia não foram suficientes. A faixa etária dos participantes foi motivo de preocupação, pois temia-se que a Carta não fosse compreendida por todos. Contudo, passou-se exactamente o contrário e o número de testemunhos foi tão elevado que tiveram de ser interrompidos quando chegou a hora da oração.

Em 2007, a paróquia de Venilale foi palco de muita violência. No início do encontro, o jovem pároco falou sobre a grande necessidade de reconciliação. Nesse mesmo ano, até as crianças participaram na violência. Depois de uma leitura da primeira parte da Carta, os jovens dividiram-se por grupos. Mais tarde, um dos capelães sugeriu que explicassem a todos aquilo que tinha sido discutido. Foi impressionante ver a quantidade de jovens que levantaram as mãos, pedindo para falar.

Um dos animadores resumiu a visita assim:

A vossa visita a Timor Leste aconteceu depois de alguns anos muito difíceis, por causa da violência e da instabilidade política do país. A visita confirmou que há esperança para este país, porque, ao longo do programa e das orações, os nossos jovens mostraram ser «terra fértil», onde coisas boas e projectos podem ser plantados. Temos uma grande responsabilidade e estamos contentes por podermos contar com a vossa solidariedade, com o vosso apoio e com a vossa oração para continuarmos a tentar construir este vulnerável e tão amado país... Tudo o que planeámos correu muito bem e sem percalços... Isto foi um sinal muito importante, pois, muitas vezes, temos a ideia de que até um pequeno passo precisa de muita energia e confiança... A semana que passaram aqui foi, de diferentes maneiras, fácil e alegre... Obrigado por partilharem esta verdadeira esperança e por caminharem esta etapa da peregrinação de confiança connosco. Agora os jovens falam uns com os outros sobre como o silêncio e a oração simples os ajudaram a descobrir a sua fonte de vida em Jesus... Para a maioria deles, isto foi uma espécie de renovação total de algo que, no coração das suas vidas, estava praticamente morto, devido ao grande sofrimento e às experiências desencorajadoras nas suas próprias vidas e na vida de Timor Leste.


Em 2008

«Será que poderemos realmente ter esperança?»

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Em Fevereiro de 2008, a visita que um irmão fez a Timor Leste foi profundamente marcada pela tentativa de assassinato do Presidente da República. Ele escreve:

Já passaram dois anos desde a última vez que estive em Timor Leste. A crise de 2006, a violência, os milhares de refugiados que chegaram das montanhas e as campanhas para as eleições legislativas e presidenciais impediram-me de lá ir entretanto. Tinha acabado de aterrar quando fui surpreendido pelo cenário que me rodeava: casas destruídas, refugiados por todo o lado, a viverem nos jardins públicos, nas paróquias, nas escolas, nos seminários, em tendas e em abrigos ou até mesmo nas varandas e nos corredores da Câmara Eclesiástica.

O primeiro encontro estava previsto para Bazartete, uma paróquia nas montanhas, a uma hora e meia de Dili. Devido às chuvas, as estradas estavam praticamente intransitáveis para os veículos a motor. Duas jovens irmãs, que vivem numa pequena comunidade na aldeia, precisaram de muita coragem para fazer a viagem. Nalguns locais, a estrada era realmente perigosa e só graças à boa vontade de algumas pessoas é que conseguimos tirar a carrinha da lama. Mas, apesar de tudo, vieram 250 jovens, alguns de localidades muito distantes, como Maliana e Liquiça… Aqueles que assim o desejaram puderam pernoitar na aldeia e as pessoas da paróquia tinham-lhes preparado uma pequena ceia. O que significava que podíamos estar à vontade, sem pressas. O DVD sobre Taizé, que fala sobre a vida da Comunidade e apresenta testemunhos de jovens, foi visualizado com muita atenção e interesse pelos jovens presentes. Eles colocaram depois imensas questões. A «Carta de Cochabamba» tinha sido traduzida em tétum. Depois de a lermos em voz alta, os jovens tiveram uns minutos de silêncio para uma releitura pessoal, seguidos por um momento de partilha. Cada pequeno grupo foi convidado a preparar uma oração para ser lida durante a oração da noite. A igreja estava maravilhosamente decorada, com muita simplicidade, o que por si só é um convite a entrar numa relação mais próxima com Cristo.

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Em cada local onde estive, o programa dos encontros foi parecido. Com um dia e meio para cada encontro, havia tempo para que cada jovem se pudesse expressar em frente a todos. Foi comovente quando um deles disse: «Tenho a sensação de que esta Carta foi escrita para nós». De facto, muitos se exprimiram de forma similar: a Carta parecia adaptada à situação actual.

Eu estava em Baucau quando chegou a notícia do atentado contra o Presidente da República e da morte do Major Alfredo. Obviamente, a notícia gerou uma enorme ansiedade. O que iria acontecer? «Em Timor, nunca se sabe o que vai acontecer amanhã». Todos permaneceram calmos e a nossa reflexão pôde continuar.

Soubemos que Dili estava calma e partimos para Fuiloro, onde 400 jovens nos esperavam. Vindos não só das duas grandes escolas de Dom Bosco, mas também de Los Palos e de outros lugares distantes de Baucau. Nesta situação de tamanha incerteza, não poderia ter sido mais apropriado terminar o encontro com uma oração à volta da cruz. Depois da leitura da «Carta de Cochabamba» e da «Carta a quem gostaria de seguir Cristo», cada pessoa foi convidada a escrever uma oração ou a expressar por escrito algo que a incomodasse ou que quisesse confiar a Cristo. Cada um colocou a sua pequena folha numa caixa junto à cruz.

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De regresso a Dili, tive vários encontros: um, ecuménico, na YMCA; outro, com postulantes e noviças de várias congregações religiosas, em Becora; outro, em Nossa Senhora de Guadalupe, em Balide; outro no Seminário Maior; e finalmente um encontro com os jovens da diocese de Dili. Em todas estas ocasiões, a oração teve uma intensidade rara. No silêncio, através dos cânticos e com gestos de prostração junto à cruz, cada um pôde expressar qualquer coisa do seu combate.

Num dos pequenos grupos de partilha, um jovem disse: «Rezamos, rezamos e nada muda!» E, depois, acrescentou: «Será que poderemos realmente ter esperança?» Ouvir estas palavras foi dilacerante. Mas a sua questão confirmou-nos naquilo que procuramos partilhar: uma oração muito simples, onde podemos abrir o nosso coração tal como ele é, com a violência e o desejo de paz que o habitam, e deixar Cristo reavivar a esperança.


Em 2002

Nova aurora... novos desafios

Timor Leste proclamou a sua independência no dia 20 de Maio de 2002, depois de um longo período de sofrimentos que assistiu a algumas das piores atrocidades dos tempos modernos. Um irmão reflecte sobre a situação do país, na sequência da sua vista – a quarta – três meses depois da independência.

Estas palavras são o título de um capítulo de uma brochura escrita na altura da independência de Timor Leste. As duas línguas faladas em Timor Loro Sae, o português e o tetun, utilizam a palavra «novo»: «Nasaun Foun» (nova nação), «Dame foun» (nova paz), e utilizam também imagens como a da aurora, «como um sol nascente». «Timor sem temor» significa «Timor sem medo». Isto foi talvez o que mais me marcou durante os primeiros dias que aqui passei. As faces, os olhares mudaram. Já não vemos aquela tristeza indizível e aquele medo no fundo do olhar, que me marcaram aquando das visitas de 1991 e mais ainda em 1992, depois do massacre de Santa Cruz.
Falei com a pessoa que me acolheu sobre a minha última visita em Julho de 2001. Estava-se no começo da campanha eleitoral. Tinha havido uma grande jornada de «paz, tolerância e democracia», na qual eu tinha participado no meio de uma grande multidão. O seu objectivo era levar todos os partidos a comprometerem-se a viver toda a campanha num espírito de respeito mútuo. Era um grande desafio para todos, mas o compromisso foi respeitado: a campanha eleitoral, as eleições e a preparação da independência foram vividas em paz. «É extraordinário constatar que, depois de vinte e oito anos de violência e de medo, o povo timorense demonstrou, apesar de tudo, a sua vontade de viver unido.» O meu anfitrião respondeu-me: «Sim, é verdade. Esta passagem pacífica para a independência é um sinal de esperança; contudo é só um sinal. É preciso esperar. Há muitas feridas por sarar. Os acontecimentos de 1999 deram lugar a toda a espécie de ajustes de contas.»

Durante a visita, houve encontros em muitos lugares, a maior parte deles durante duas ou três horas. Cada encontro dava oportunidades para falar daquilo que se vive em Taizé: por exemplo, neste Verão, jovens timorenses que estudam em Portugal vieram participar nos encontros internacionais. Saber isto foi muito importante para os jovens deste novo país.

No início dos encontros explicava o sentido da visita; ou melhor, o sentido das visitas que muitos irmãos fazem através do mundo: exprimir a nossa vocação para a comunhão. Aqui, em Timor, esta vocação é confirmada no momento em que o Presidente, os bispos e todos os que têm responsabilidades convidam o povo timorense a viver na unidade.

É talvez impressionante ouvir as reacções dos jovens à leitura da Carta de 2002 do irmão Roger, «Ama e di-lo com a tua vida» : «Nem as desgraças nem a injustiça da pobreza vêm de Deus: Deus só pode dar o seu amor.»

«Muitas vezes os nossos pais dizem-nos que é preciso aceitar a realidade, os acontecimentos, porque foi isso que Deus preparou para nós. Isso pode tornar-nos passivos ou agressivos. Mas se soubermos e acreditarmos que Deus não quer o sofrimento, nós podemos dizer para nós próprios: "levanta-te! faz um esforço, faz com que esse sofrimento seja, senão suprimido, pelo menos aliviado; faz todo o possível para que a injustiça que te revolta não exista mais."»

A passagem da Carta sobre o jovem africano que perdeu o pai é também muito significativo, porque muitos aqui estão também na mesma situação. «Sabem que a vossa tradutora desta manhã é irmã do Padre Hilário, um jovem sacerdote de Suai, morto em 1999?»

A questão de fundo é a do perdão e da reconciliação. Kofi Annan, no seu discurso no dia da independência, tinha dito: «Os timorense demonstraram uma imensa capacidade para perdoarem e para aceitarem entre si o regresso dos que cometeram crimes.» Isso é certamente verdade, mas a realidade é infinitamente mais complexa. Os vinte e cinco anos de ocupação e de opressão deixaram traços profundos. Será preciso alguns anos para que se dê a cura.

A revista «Églises d’Asie» de 1 de Junho de 2002 publicou uma entrevista com o bispo de Baucau. Perguntaram a D. Basílio do Nascimento: «As violências de Setembro de 1999 permanecem muito presentes nos espíritos. Pensa que a reconciliação e a justiça são coisas compatíveis?»

Ele respondeu: «Sim. Os timorenses são um povo simples. Têm um sentido muito profundo da justiça. Por exemplo, se você me fizer mal, mesmo em criança, utilizando por exemplo uma palavra pouco conveniente, enquanto não der o primeiro passo, a mágoa, os sentimentos misturados, e mesmo a ferida continuam presentes. Dirá: é mais fácil que eu dê o primeiro passo. Como cristão, isso está certo. Mas, como timorense, sinto-me um pouco diminuído porque não me compete a mim fazê-lo. A partir do momento em que aquele que feriu dá o primeiro passo, tudo é completamente apagado.

O que, no fundo, o povo pede, é que o mal cometido seja reconhecido e que esse reconhecimento passe por um julgamento e uma pena de prisão, mas também por pequenos gestos que mostrem que o erro foi admitido. Sem estes gestos, por muito simples que sejam, a harmonia das relações entre as pessoas envolvidas não será restabelecida.

Estes gestos podem tomar a forma de encontros nas aldeias onde os autores dos crimes peçam para serem perdoados. Segundo os costumes tradicionais, eles podem sacrificar um animal para dar de comer a toda a aldeia. Isso é suficiente para assegurar a reintegração na sociedade local, uma vez que toda a gente constata que eles reconheceram a sua situação de criminosos. Eles terão apagado as suas más acções fazendo uma reparação honrosa.» (EDA n 354).

Printed from: http://www.taize.fr/pt_article6519.html - 11 August 2020
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