Textos bíblicos com comentário

Estas meditações bíblicas são sugeridas como meio de procura de Deus no silêncio e na oração, mesmo no dia-a-dia. Consiste em reservar uma hora durante o dia para ler em silêncio o texto bíblico sugerido, acompanhado de um breve comentário e de algumas perguntas. Em seguida constituem-se pequenos grupos de 3 a 10 pessoas, para uma breve partilha do que cada um descobriu, integrando eventualmente um tempo de oração.
2015

Março

Lucas 10, 25-37: Tornar-se um próximo
Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?»
O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.» Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ’Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.’ Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.» (Lucas 10, 25-37)

A questão que o homem coloca a Jesus é muito directa: «O que devo fazer para receber a vida eterna?» Pode dizer-se ainda: como fazer para estar realmente vivo, para que a minha vida não seja apenas um vida para a morte, mas uma vida pela vida, uma vida para sempre? A resposta de Jesus apela às capacidades deste homem, que é doutor da lei, ou seja, especialista nas Escrituras: «O que está escrito na Lei? Como a lês?» O homem responde com a associação de dois textos da Bíblia. A primeira parte, sobre «Amar a Deus», vem do livro do Deuteronómio (6,5). A segunda, «Amar o próximo», vem do livro do Levítico (19,8). Se os textos são conhecidos, a sua junção é, no entanto, original. A palavra «amar» não surge duas vezes, como seria expectável, mas apenas uma. Amar o seu próximo não é, então, uma segunda realidade adicionada à primeira. Deus e o próximo são parte de um só movimento, o mesmo amor. E, assim, Jesus felicita o homem. Eis o essencial para viver verdadeiramente.

Contudo, o homem não pára por aqui. «E quem é o meu próximo?», pergunta. O mundo em que Jesus viveu era já um mundo multicultural. No Império Romano, povos, culturas e religiões estavam misturadas. Mas é provável que a resposta para esta questão possa ter sido evidente, pelo menos para uma grande parcela da população da altura: o meu próximo é, primeiramente, um membro do meu próprio povo. Embora deva respeitar um estrangeiro, e até oferecer-lhe hospitalidade, ele permanece estrangeiro; não é «meu próximo».

Jesus responde com uma parábola. Um viajante anónimo, só e indefeso, é espancado e abandonado. Duas passas passam por ele e deixam-no entregue ao seu destino. Por que é que o sacerdote e levita não pararam? Estariam com medo? Pensaram que o homem estava já morto, e, assim, impuro? A estrada de Jerusalém a Jericó tinha 25 quilómetros de comprimento. Atravessava uma região praticamente inabitada e era conhecida pelos seus malfeitores. Quem não teria medo? Em oposição, o samaritano parece totalmente despreocupado. Enche-se de compaixão pelo que vê. O texto expressa o dilema que todos experienciamos: estar encurralado entre as nossas boas intenções e os nossos medos.

Tudo o que sabemos deste homem é que é samaritano, ou seja, um habitante da Samaria, país vizinho e hostil ao povo judeu. Quando São João descreve o encontro entre Jesus e uma mulher samaritana junto a um poço, diz simplesmente: «Os judeus não se dão bem com os samaritanos». Assim, este homem não é apenas um não-judeu. Pior, é membro de um povo considerado inaceitável.

Na parábola, a bondade não vem nem do levita nem do sacerdote – aqueles que deveriam reconhecer o homem ferido como seu próximo – mas de um desconhecido de que não seria esperada a menor simpatia. A verdadeira bondade tem sempre algo de inesperado. Não nos pertence. Pertence a Deus, a todos e para todos. Vejamos a acumulação de detalhes que o relato nos dá, a tudo o que o samaritano faz pelo viajante ferido. Liga as suas feridas, coloca-o sobre o seu burro, leva-o à estalagem e cuida dele durante a noite. No dia seguinte, deixa dinheiro com o estalajadeiro, dois denários – dois dias de salário para um trabalhador daqueles dias – e diz que regressará. Sabe dar sem calcular, e ninguém, à excepção do estalajadeiro, o vê para o felicitar. A parábola faz-nos olhar para estes gestos para que nos reconheçamos neles: curar, transportar, velar, dar, regressar…

De seguida, Jesus diz: «Qual dos três te parece ter sido o próximo do homem que caiu às mãos dos salteadores?» O homem responde: «O que usou de misericórdia para com ele». Jesus diz-lhe: «Vai e faz tu também o mesmo». A mudança é subtil. O doutor da lei não fala do «samaritano», mas, sim, «do que usou misericórdia». Não vê um samaritano nem um judeu, vê apenas uma pessoa que deu provas de bondade, e uma outra que dela necessitava.

A pergunta mudou, em comparação com o começo da história. No final, Jesus não pergunta ao doutor da Lei «quem é o meu próximo?», mas «quem foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?» A perspectiva foi revertida. Não se pode dizer: «quem é o meu próximo e quem não o é?». Então, deixo de fazer triagem aos que encontro. Pergunto-me frequentemente: estou a agir como um próximo? Sou um próximo? Querer saber o que deve e o que não deve ser amado é verdadeiramente amor? Para amar nas pegadas de Cristo não devemos permitir que o amor ocupe todo espaço, toda a largueza que requer?

- Que aspectos da partilha e da parábola captam mais a minha atenção? Porquê?

- Tornar-se um próximo: o que é que isto implica?

- Como seria esta história se a transpusesse para as circunstâncias do mundo contemporâneo?



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Última actualização: 1 de Março de 2015