Textos bíblicos com comentário

Estas meditações bíblicas são sugeridas como meio de procura de Deus no silêncio e na oração, mesmo no dia-a-dia. Consiste em reservar uma hora durante o dia para ler em silêncio o texto bíblico sugerido, acompanhado de um breve comentário e de algumas perguntas. Em seguida constituem-se pequenos grupos de 3 a 10 pessoas, para uma breve partilha do que cada um descobriu, integrando eventualmente um tempo de oração.
2014

Novembro

Lucas 23,39-43: Liberto perante a cruz
Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.» Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam; mas Ele nada praticou de condenável.» E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino.» Ele respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.»» (Lucas 23,39-43)

Dois malfeitores são crucificados ao lado de Jesus. Apesar do seu sofrimento e de estarem completamente esgotados, estes dois homens não conseguem deixar de olhar para Ele, assim como faz todo o povo (v.35) e os amigos de Jesus (v.49). Jesus na cruz permanece uma imagem que interpela, ninguém à sua volta fica indiferente.

Os chefes e os soldados encontram aí uma razão de gozo (vv.35-36). Um dos malfeitores insulta Jesus. Porque não se salva, se tem poder para o fazer? Este homem pede a Jesus que utilize o que recebeu de Deus para o seu bem-estar, para tornar a sua vida mais fácil. E também para cumprir rapidamente a sua missão de salvar os outros: se é o Messias, por que não ajuda estes dois crucificados prestes a morrer, tal como ajudou tantos doentes? Se é o Messias, por que não salva os dois miseráveis moribundos, inspirado pelo seu Pai, que «é bom até para os ingratos e os maus» (Lucas 6,5)? «Salva-nos», pede o malfeitor crucificado.

O outro malfeitor repreende o primeiro. Fala de um «temor a Deus», que o leva a reconhecer a sua culpa e a inocência de Jesus. Um temor que, longe de o paralisar, lhe abre as portas da esperança. Perante a cruz, este homem encontra coragem para pensar no futuro e forças para rezar a Jesus, pedindo-lhe para não se esquecer dele quando estiver no seu reino. Porém, a sua oração é humilde, não exige nada. É uma oração honesta, as suas palavras demonstram sinceridade: não esconde o mal praticado. E é, de igual modo, uma oração cheia de confiança, porque sabe que Jesus virá como rei, mesmo se, diante dele, se encontra apenas um crucificado à beira da morte. Este segundo malfeitor não se ilude em relação às suas próprias capacidades: precisa que Jesus se recorde dele para o apoiar e o tratar. Sabe que bastará que Jesus se recorde dele para que seja salvo. Também ele pede para ser salvo.

Ao primeiro malfeitor, Jesus não responde. Por detrás do seu pedido, aparentemente legítimo, esconde-se na realidade a voz do tentador (ver Lucas 4,9). Jesus não se deixa levar por esse tipo de provocações. Quando o seu amigo Pedro lhe disse que não devia escolher o caminho da cruz, Jesus respondeu-lhe com palavras duras e muito firmes: «Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um estorvo» (Mateus 16,23).

Ao segundo malfeitor, que demonstra uma grande fé, Jesus oferece a sua comunhão e promete a vida em plenitude: «Hoje estarás comigo no Paraíso». Uma promessa formal, com o selo da sua autoridade: «Em verdade te digo». Estas palavras de Jesus são surpreendentes. Na cruz, Jesus abre os braços do perdão a um homem que diz merecer a pena capital por causa das suas más acções. E este criminoso será talvez a primeira pessoa a encontrar Jesus no Paraíso. O amor de Jesus surpreender-nos-á sempre.

Em cada um de nós surgem muitas vozes que procuram fazer-se ouvir. Entre elas, os gritos destes dois malfeitores podem também manifestar-se. Seguir a primeira voz conduzir-nos-ia a uma atitude acusadora, a que nos centrássemos em nós mesmos e nos mantivéssemos distantes de Deus e dos outros. Escutar e valorizar a segunda voz pode ajudar-nos a abrir os olhos para melhor assumir o que somos, para reconhecer a presença de Deus onde não a pensávamos poder encontrar e para lhe pedirmos que nos apoie. É uma atitude que nos liberta.

- O que me ajuda a discernir as armadilhas que se podem esconder nas vozes que me rodeiam? Onde posso encontrar coragem para não perder tempo com elas?

- Alguma vez passei pela experiência de me sentir liberto perante a cruz? Será que a oração do malfeitor me pode ajudar a reencontrar paz interior?



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Última actualização: 1 de Novembro de 2014