Irmão Matthew

Presente nas Nossas Lágrimas

Quinta-feira 23 Julho, 2026

Durante esta semana, sejam de onde forem, todos vieram com os seus próprios desafios.  Espero que os momentos de partilha e de oração comunitária vos tenham ajudado a descobrir uma unidade mais profunda no meio da vossa diversidade. Escutar pessoas diferentes de nós pode ser um verdadeiro dom. Ajuda-nos a ultrapassar as barreiras atrás das quais tantas vezes nos escondemos e a resistir às armadilhas da polarização e do preconceito, que prometem segurança, mas acabam por trazer apenas tristeza e isolamento. Estaremos dispostos a aceitar este desafio?

Paradoxalmente, aceitar este desafio significa estar disposto a deixar para trás uma parte de nós mesmos. Significa aceitar ser surpreendido por aquilo que descobrimos no outro. Quando reconhecemos o outro tal como ele é — ou quando ele nos reconhece a nós — alguma coisa muda dentro de nós.

O Evangelho mostra-nos que o mesmo acontece na nossa relação com Cristo. Antes de o reconhecermos, muitas vezes descobrimos que foi ele quem primeiro nos reconheceu. Foi isso que vimos ontem, ao celebrarmos a festa de Santa Maria Madalena.

Na manhã do primeiro dia da semana, Maria vai ao túmulo, depois da morte de Jesus na cruz. A amizade fiel que tinha por ele leva-a até ali, mesmo quando toda a esperança parece perdida.

Maria chora porque o corpo de Jesus já não está no túmulo. Os anjos perguntam-lhe: «Porque choras?» Depois é o próprio Jesus que lhe faz a mesma pergunta, antes de acrescentar outra: «Quem procuras?»

Maria pensa que é o jardineiro. Mas, quando Jesus a chama pelo seu nome, os seus olhos abrem-se. Na tradição bíblica, o nome revela a identidade mais profunda da pessoa. Maria descobre que foi primeiro reconhecida por Cristo; só então é capaz de o reconhecer. E responde: «Rabbuni!», que quer dizer: «Meu Mestre!» Continua a ser aquele que sempre foi para ela.

Maria quer ficar junto de Jesus, mas ele diz-lhe que não se agarre a ele. Envia-a antes aos discípulos para lhes anunciar que sobe para junto do seu Pai e Pai deles, do seu Deus e Deus deles. Assim, Maria, uma mulher, torna-se a apóstola dos apóstolos. Embora Jesus já não esteja visivelmente presente, ela leva agora a sua presença consigo, através da Boa Nova que recebeu a missão de anunciar.

Também nós nem sempre reconhecemos Jesus. E, no entanto, ele está presente, tanto nas nossas lágrimas como nas nossas alegrias. Nem sempre nos sentimos preparados para responder ao seu chamamento, mas ele continua a enviar-nos. Abre diante de nós um caminho de comunhão com Deus e uns com os outros.

Yuliana fala:

O meu nome é Yuliana, tenho 18 anos, sou voluntária da Ucrânia e hoje quero partilhar convosco a minha história. Desde pequena, os meus pais educaram-me na fé cristã. Todos os domingos íamos à igreja, onde escutava as homilias. De certa forma, acreditava que Deus existia, mas, para mim, ele não era um Pai cheio de amor. Era alguém que olhava para nós do alto do céu com severidade. Quando começou a invasão em grande escala, em 2022, a vida dos ucranianos mudou para sempre.

Na noite de 23 de fevereiro, ria-me do meu pai quando nos avisava que a guerra estava prestes a começar. Mas, no dia 24, acordou-nos com estas palavras: «Levantem-se! A Rússia está a lançar mísseis contra nós.» Aprendemos a viver sem eletricidade, a dormir em abrigos e a habituar-nos ao som das sirenes, que faziam o meu irmão mais novo chorar. Mas o pior de tudo foi aprendermos a enterrar aqueles que amávamos. Um primo da minha mãe desapareceu em combate e, até hoje, nada sabemos dele. É assim que milhões de ucranianos vivem todos os dias.

Pergunto muitas vezes a Deus: porquê? Porque é que tudo isto está a acontecer? Porque é que, no século XXI, crianças morrem sob os bombardeamentos e jovens, que deviam estar a construir o futuro do nosso país e do mundo, perdem a vida por causa da guerra? Não tenho resposta. Tal como não tenho resposta para tantas outras perguntas. Pouco antes de vir para Taizé, a minha avó morreu e voltei a perguntar a Deus porque a levou. Procurava consolar-me pensando: «Talvez agora não compreenda, mas um dia compreenderei.» Mas o sacerdote com quem falei respondeu-me: «Não tens de compreender. Basta confiares nele.»

E agora estou aqui, em Taizé. Compreendo plenamente porquê? Não. Mas acredito que ele está mesmo ao meu lado, até quando estou a separar o lixo para reciclagem ou a limpar casas de banho. Aqui encontrei pessoas extraordinárias que me abriram o coração e, através delas, consigo reconhecer a presença de Deus. Faço muitas vezes a mim própria duas perguntas: porque é que as pessoas conseguem ser tão cruéis? E porque é que as pessoas conseguem ser tão boas? Não sei o que vai acontecer nem de que maneira. Mas, no mais profundo do meu coração, guardo a esperança de que tudo acabará por ficar bem. E tenho a certeza de que não cairei, porque ele está comigo.

Convido-vos a juntarem-se a nós amanhã, já às oito da noite, aqui na igreja, para rezarmos em silêncio pela paz no nosso mundo. Não esqueço também os nossos voluntários vindos do Líbano. A nossa oração mostra que não queremos ficar indiferentes perante a violência imposta a tantas pessoas nos países devastados pela guerra.

Ao regressarem a casa, gostaria de vos pedir que continuem a rezar pela paz. E, se durante esta semana conheceram jovens da Ucrânia ou de outros países marcados pela guerra, procurem manter o contacto com eles. Assim poderemos continuar a apoiar-nos uns aos outros.

Lembrando o exemplo de Maria Madalena, deixo-vos estas perguntas: Quem procuram? Como encontraram Cristo durante esta semana? Para onde vos envia ele? E que Boa Nova vos confia? Guardem estas perguntas no coração durante os próximos dias.

 

 

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Publicado a 27 de jul. de 2026