Um trabalho de Verdade
Neste tempo em que a Sociedade e a Igreja procuram uma clarificação sobre abusos e agressões sexuais, nomeadamente de menores de idade e de pessoas frágeis, com os meus irmãos pensámos ser necessário fazermos também uma comunicação. Em Taizé, acolhemos há várias décadas, semana após semana, milhares de jovens e de menos jovens da Europa e do mundo inteiro.
Conscientes da nossa responsabilidade e da confiança que em nós colocam os jovens, as suas famílias e aqueles que os acompanham a Taizé, sempre procurámos que este acolhimento se desenvolvesse nas melhores condições, no respeito pelas convicções e numa grande atenção à segurança e à integridade de todos.
No entanto, entre jovens ou entre jovens e adultos, participantes nos encontros, podem ter ocorrido violações da integridade humana. Quando somos informados destas situações, procuramos escutar as vítimas e também alertar as autoridades competentes, judiciais e eclesiais.
Entre outras medidas, desde 2010 temos uma página do site internet dedicada à protecção das pessoas [1] e foi criado um endereço electrónico para facilitar eventuais revelações. Na colina de Taizé, um dos irmãos e algumas pessoas que não pertencem à Comunidade foram encarregadas de escutar qualquer pessoa que tenha conhecimento de agressões de caracter sexual ou outras formas de violência, em particular no que diz respeito a menores de idade: isso faz parte das informações dadas a todos os participantes no momento da sua chegada.
Se faço hoje esta comunicação é porque tive conhecimento, com uma grande tristeza, de casos implicando irmãos. Mesmo se são antigos, em Comunidade pensámos que deveríamos falar deles. Refiro-me a cinco casos de agressões de carácter sexual cometidas sobre menores, nos anos 50 a 80, por três irmãos diferentes, dois dos quais morreram há mais de quinze anos. [2]
Quando fui informado destas acusações, a primeira coisa que fiz, com outros irmãos, foi escutar as pessoas vítimas, num respeito absoluto pela sua palavra, ouvindo o seu sofrimento e acompanhando-as o melhor possível.
Nestes últimos anos, na Sociedade e na Igreja, a compreensão da gravidade de qualquer atentado à integridade humana tem-se felizmente aprofundado. Isso encontra um eco na evolução da lei francesa, que exige que se comuniquem às autoridades todos os casos, independentemente da época em que os actos tenham sido cometidos.
Para continuar o nosso trabalho de verdade, e depois de ter falado com as pessoas vítimas, acabo de informar o Procurador da República destas cinco situações.
Reconhecemos que estas agressões, cometidas no passado pelos irmãos, também fazem parte da história da nossa Comunidade. Para nós, esta comunicação ao Procurador inscreve-se num trabalho de verdade que já tinha começado pela escuta das vítimas e hoje é ainda para elas que se dirigem os nossos primeiros pensamentos. Ao ouvir o que elas viveram e sofreram, sentimos vergonha e uma tristeza profunda. É possível que esta intervenção incite outras eventuais vítimas a falar: nesse caso, estaremos à escuta delas e procuraremos acompanhá-las nas acções que elas pretenderem desenvolver.
Estamos convencidos que é apenas trazendo luz sobre estes actos que poderemos contribuir, ajudados por pessoas de fora da Comunidade, a proteger de forma eficaz todos aqueles que confiam em nós vindo a Taizé. Se falo hoje é porque devemos isso às pessoas vítimas, aos seus familiares e próximos e a todos os que procuram em Taizé um espaço de confiança, de segurança e de verdade.
Quarta-feira, 4 de juho de 2019
irmão Alois
Qualquer agressão, antiga ou mais recente, cometida contra uma pessoa menor ou maior de idade, seja por um irmão que tenha abusado da sua ascendência moral ou por qualquer outra pessoa, pode ser comunicada ao endereço [email protected] ou a uma associação de apoio à vítima.