Visitas a Timor Lorosae

De sexta-feira 13 a sexta-feira 20 de Março de 2009, tiveram lugar em Timor Leste vários encontros com a presença de um irmão de Taizé. Ele escreveu:

Vulneráveis e fortes

Foi a primeira vez que um retiro foi proposto aos jovens da Diocese de Dili. As Irmãs do Sagrado Coração ofereceram hospitalidade na sua casa na aldeia montanhosa de Bazartete. Na casa há um infantário que, para a ocasião, foi transformado em local de silêncio.

A equipa de pastoral juvenil convidou todas as paróquias a enviarem dois jovens, e acabaram por participar 45. O centro da reflexão foi a Carta do Quénia e, com o objectivo de encorajar os jovens a assumirem um papel activo, foram convidados a fazer cartazes que ilustrassem as questões que haviam sido colocadas: «De que fontes vivemos nós?» e «o que nos ajuda a limpar aquilo que obstrui essas fontes?»

Na tarde de domingo, os participantes no retiro desceram a Dili para uma oração aberta a todos, especialmente àqueles que não puderam deslocar-se a Bazartete. Houve dois problemas: o lugar previsto para a oração estava a ser usado para outra actividade e uma chuva torrencial provocou um corte de energia. Apesar de tudo, foi possível rezarmos juntos com algumas centenas de jovens.

Em Venilane, na Diocese de Baucau, estava à nossa espera outro desafio. Algumas centenas de jovens, com idades entre os 10 e os 25 anos, vieram não só das paróquias e das escolas salesianas, mas também de perto de Fatumaca. As folhas cânticos para a oração e a Carta do Quénia não foram suficientes. A faixa etária dos participantes foi motivo de preocupação, pois temia-se que a Carta não fosse compreendida por todos. Contudo, passou-se exactamente o contrário e o número de testemunhos foi tão elevado que tiveram de ser interrompidos quando chegou a hora da oração.

Em 2007, a paróquia de Venilale foi palco de muita violência. No início do encontro, o jovem pároco falou sobre a grande necessidade de reconciliação. Nesse mesmo ano, até as crianças participaram na violência. Depois de uma leitura da primeira parte da Carta, os jovens dividiram-se por grupos. Mais tarde, um dos capelães sugeriu que explicassem a todos aquilo que tinha sido discutido. Foi impressionante ver a quantidade de jovens que levantaram as mãos, pedindo para falar.

Um dos animadores resumiu a visita assim:

A vossa visita a Timor Leste aconteceu depois de alguns anos muito difíceis, por causa da violência e da instabilidade política do país. A visita confirmou que há esperança para este país, porque, ao longo do programa e das orações, os nossos jovens mostraram ser «terra fértil», onde coisas boas e projectos podem ser plantados. Temos uma grande responsabilidade e estamos contentes por podermos contar com a vossa solidariedade, com o vosso apoio e com a vossa oração para continuarmos a tentar construir este vulnerável e tão amado país… Tudo o que planeámos correu muito bem e sem percalços… Isto foi um sinal muito importante, pois, muitas vezes, temos a ideia de que até um pequeno passo precisa de muita energia e confiança… A semana que passaram aqui foi, de diferentes maneiras, fácil e alegre… Obrigado por partilharem esta verdadeira esperança e por caminharem esta etapa da peregrinação de confiança connosco. Agora os jovens falam uns com os outros sobre como o silêncio e a oração simples os ajudaram a descobrir a sua fonte de vida em Jesus… Para a maioria deles, isto foi uma espécie de renovação total de algo que, no coração das suas vidas, estava praticamente morto, devido ao grande sofrimento e às experiências desencorajadoras nas suas próprias vidas e na vida de Timor Leste.


«Será que poderemos realmente ter esperança?»

Em Fevereiro de 2008, a visita que um irmão fez a Timor Leste foi profundamente marcada pela tentativa de assassinato do Presidente da República. Ele escreve:

Já passaram dois anos desde a última vez que estive em Timor Leste. A crise de 2006, a violência, os milhares de refugiados que chegaram das montanhas e as campanhas para as eleições legislativas e presidenciais impediram-me de lá ir entretanto. Tinha acabado de aterrar quando fui surpreendido pelo cenário que me rodeava: casas destruídas, refugiados por todo o lado, a viverem nos jardins públicos, nas paróquias, nas escolas, nos seminários, em tendas e em abrigos ou até mesmo nas varandas e nos corredores da Câmara Eclesiástica.

O primeiro encontro estava previsto para Bazartete, uma paróquia nas montanhas, a uma hora e meia de Dili. Devido às chuvas, as estradas estavam praticamente intransitáveis para os veículos a motor. Duas jovens irmãs, que vivem numa pequena comunidade na aldeia, precisaram de muita coragem para fazer a viagem. Nalguns locais, a estrada era realmente perigosa e só graças à boa vontade de algumas pessoas é que conseguimos tirar a carrinha da lama. Mas, apesar de tudo, vieram 250 jovens, alguns de localidades muito distantes, como Maliana e Liquiça… Aqueles que assim o desejaram puderam pernoitar na aldeia e as pessoas da paróquia tinham-lhes preparado uma pequena ceia. O que significava que podíamos estar à vontade, sem pressas. O DVD sobre Taizé, que fala sobre a vida da Comunidade e apresenta testemunhos de jovens, foi visualizado com muita atenção e interesse pelos jovens presentes. Eles colocaram depois imensas questões. A «Carta de Cochabamba» tinha sido traduzida em tétum. Depois de a lermos em voz alta, os jovens tiveram uns minutos de silêncio para uma releitura pessoal, seguidos por um momento de partilha. Cada pequeno grupo foi convidado a preparar uma oração para ser lida durante a oração da noite. A igreja estava maravilhosamente decorada, com muita simplicidade, o que por si só é um convite a entrar numa relação mais próxima com Cristo.

Em cada local onde estive, o programa dos encontros foi parecido. Com um dia e meio para cada encontro, havia tempo para que cada jovem se pudesse expressar em frente a todos. Foi comovente quando um deles disse: «Tenho a sensação de que esta Carta foi escrita para nós». De facto, muitos se exprimiram de forma similar: a Carta parecia adaptada à situação actual.

Eu estava em Baucau quando chegou a notícia do atentado contra o Presidente da República e da morte do Major Alfredo. Obviamente, a notícia gerou uma enorme ansiedade. O que iria acontecer? «Em Timor, nunca se sabe o que vai acontecer amanhã». Todos permaneceram calmos e a nossa reflexão pôde continuar.

Soubemos que Dili estava calma e partimos para Fuiloro, onde 400 jovens nos esperavam. Vindos não só das duas grandes escolas de Dom Bosco, mas também de Los Palos e de outros lugares distantes de Baucau. Nesta situação de tamanha incerteza, não poderia ter sido mais apropriado terminar o encontro com uma oração à volta da cruz. Depois da leitura da «Carta de Cochabamba» e da «Carta a quem gostaria de seguir Cristo», cada pessoa foi convidada a escrever uma oração ou a expressar por escrito algo que a incomodasse ou que quisesse confiar a Cristo. Cada um colocou a sua pequena folha numa caixa junto à cruz.

De regresso a Dili, tive vários encontros: um, ecuménico, na YMCA; outro, com postulantes e noviças de várias congregações religiosas, em Becora; outro, em Nossa Senhora de Guadalupe, em Balide; outro no Seminário Maior; e finalmente um encontro com os jovens da diocese de Dili. Em todas estas ocasiões, a oração teve uma intensidade rara. No silêncio, através dos cânticos e com gestos de prostração junto à cruz, cada um pôde expressar qualquer coisa do seu combate.

Num dos pequenos grupos de partilha, um jovem disse: «Rezamos, rezamos e nada muda!» E, depois, acrescentou: «Será que poderemos realmente ter esperança?» Ouvir estas palavras foi dilacerante. Mas a sua questão confirmou-nos naquilo que procuramos partilhar: uma oração muito simples, onde podemos abrir o nosso coração tal como ele é, com a violência e o desejo de paz que o habitam, e deixar Cristo reavivar a esperança.

Última actualização: 26 de Abril de 2009