TAIZÉ

Textos bíblicos com comentário

 
Estas meditações bíblicas são sugeridas como meio de procura de Deus no silêncio e na oração, mesmo no dia-a-dia. Consiste em reservar uma hora durante o dia para ler em silêncio o texto bíblico sugerido, acompanhado de um breve comentário e de algumas perguntas. Em seguida constituem-se pequenos grupos de 3 a 10 pessoas, para uma breve partilha do que cada um descobriu, integrando eventualmente um tempo de oração.

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2024

Fevereiro

Marcos 4, 35-41 Optar pela confiança
Naquele dia, ao entardecer, Jesus disse: “Passemos para a outra margem.” Afastando-se da multidão, levaram-no consigo, no barco onde estava; e havia outras embarcações com Ele. Desencadeou-se, então, um grande turbilhão de vento, e as ondas arrojavam-se contra o barco, de forma que este já estava quase cheio de água. Jesus, à popa, dormia sobre uma almofada. Acordaram-no e disseram-lhe: “Mestre, não te importas que pereçamos?” Ele, despertando, falou imperiosamente ao vento e disse ao mar: “Cala-te, acalma-te!” O vento serenou e fez-se grande calma. Depois disse-lhes: “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” E sentiram um grande temor e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”

As multidões reuniram-se nas margens do lago da Galileia para ouvir Jesus e Ele disse-lhes muitas coisas sobre o Reino de Deus. O dia chega ao fim e dá lugar à escuridão. Mas Jesus volta-se para os seus discípulos e propõe-lhes irem para a outra margem do lago. Estes não parecem ter hesitado. Alguns deles eram pescadores e certamente conheciam bem as águas.

Neste ponto do Evangelho de S. Marcos, a história tem-se desenrolado principalmente na região de onde Jesus era natural, a Galileia. Ao dirigir-se para a margem oposta, Jesus escolhe visitar outro país. A Galileia era habitada por uma população predominantemente judia; a outra margem, por pagãos, por não-judeus. Apesar de todas estas regiões se encontrarem sob ocupação romana, a separação do lago tinha o efeito de as distinguir. Na verdade, na passagem seguinte, quando Jesus e os discípulos vão para o outro lado, espera-os um cenário muito diferente. Não se deparam com uma multidão que se apressa a ouvir o que Jesus tem a dizer, mas com uma pessoa ostracizada, aprisionado por uma angústia indescritível.

Estas três cenas parecem-me estar profundamente relacionadas: primeiro, Jesus dedica o teu tempo a falar do Reino de Deus a uma multidão reunida na margem, em seguida a pequena embarcação navegando na noite e, por fim, quando o dia regressa, este encontro marcante na margem oposta. O Reino de Deus consiste em “ir à outra margem”. Ele existe em cada lugar e em cada instante em que deixamos o dom de Deus crescer em nós e predispor-nos para ir ao encontro dos outros, próximos ou distantes, enquanto seres humanos dignos da nossa atenção e da nossa estima. Esta forma única que Jesus tinha de olhar, de se aproximar e de estabelecer relações com as pessoas é, em si própria e de muitas maneiras, expressão da Boa Nova.

O lago da Galileia, situado 200 metros abaixo do nível do mar e rodeado por altas colinas, é conhecido até hoje pelas suas imprevisíveis tempestades. Quando um vento forte se abate sobre o barco, Jesus dorme à popa com a cabeça pousada numa almofada, provavelmente a que estava reservada ao timoneiro. Que imagem! Jesus profundamente adormecido sobre uma almofada, no meio dos seus discípulos, todos envoltos numa grande tempestade. Isto pode recordar-nos uma das parábolas que Jesus havia contado anteriormente. O Reino de Deus, disse, “é como um homem que lançou a semente à terra. Quer esteja a dormir, quer se levante, de noite e de dia, a semente germina e cresce, sem ele saber como.” (Marcos 4, 26-27) De uma certa forma, quase além do que podemos imaginar, Jesus no barco com os seus discípulos encarna esse repouso confiante do semeador.

No entanto, a tempestade continua, furiosa, até no coração dos discípulos. Eles gritam: “Mestre, não te importa que pereçamos?” Jesus desperta, diz algumas palavras, e faz-se uma grande calmaria. Poder-se-ia mesmo dizer uma “mega-calmaria” para usarmos o adjectivo grego megalē que Marcos aplica à tempestade e, por fim, ao espanto dos discípulos.

A fé não é um acto desinvestido ou repetitivo. Nesta passagem, vemos como a fé em Jesus vive e respira, pelo facto de responder às pessoas e aos acontecimentos, e como ela se manifesta através de diversas acções, muitas vezes aparentemente banais: escutar, manter o rumo, manejar os remos e a vela, pedir ajuda durante a tempestate, exprimir o assombro... Hoje, Jesus propõe-nos também escutar e deixar as margens que nos são familiares. Não é preciso viajar para longe para descobrir o Reino de Deus em germinação e saborear por nós próprios a paz de Cristo.

- Em que penso quando oiço a frase de Jesus: “Passemos para a outra margem”?
- Que tempestades enfrento ou enfrentamos?
- De que formas diferentes vivemos e praticamos a nossa fé?



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Última actualização: 1 de Fevereiro de 2024